Sabrina Noivas 123 - Love's Funny That Way

4 amigas do colegial e 1 pacto: casarem-se com o homem ideal at os 30 anos! A noiva: Raven Muldoon, terapeuta por vocao e comediante por talento, percebe que as amigas da "Aliana do Matrimnio" cometeram 1 grande erro na escolha de seu homem perfeito...O noivo: Brent Radley,1 homem aparentemente perfeito para ser o marido... pelo menos at Raven conhecer seu irmo mais novo...O obstculo: Hunter, o irmo de Brent, no parece ser o exemplo de homem ideal, mas nem ele roubaria a namorada do irmo. Agora, cabe a Raven convenc-lo...

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2001
Publicao original: 2000. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo
 Srie Wedding Ring

1. Love's Funny That Way (2000)  Sab.Noivas 123
2. Fiance for Hire (2001)
3. I Do, but Here's the Catch (2001)
4. One Eager Bride to Go (2001)



PRLOGO

Jones Beach, Long Island, agosto de 1988

Veja os cabelos daquele gato ali!  Amanda Coppersmith cutucou a garota morena deitada a seu lado na colcha que servia de toalha de praia.  Ele est olhando para voc, Charli. Sorria. V em frente.
	Amanda, quer parar? Ele vai ouvir!  Enrubescendo intensamente apesar do bronzeado, Charli Rossi arriscou uma olhadela ao rapaz que atirava um disco voador de brinquedo ao longe.
Do outro lado de Amanda, Sunny Bleecker rolou para ficar de bruos. Pousando a cabea no brao, afastou os cachos ruivos curtos do rosto.
	Pare de atorment-la, Amanda. Se acha aquele cara to demais, v atrs dele.  Riu.  Se tiver coragem.
	 um desafio?
	.
	E eu a desafio em dobro!  completou Raven Muldoon, chegando toda molhada de um mergulho nas ondas. Estendeu-se na colcha e empurrou Sunny com o quadril. As trs se ajeitaram para lhe dar espao.  Mas quem estamos desafiando a fazer o qu mesmo?
Charli apoiou-se num cotovelo e sussurrou:
	Sunny desafiou Amanda a falar com aquele gato ali.
Raven sentou-se e olhou ao redor.
	Que gato?
	No olhe!  Charli encolheu-se e enterrou o rosto nos braos cruzados.
	Aquele de calo verde  esclareceu Amanda, apontando.
	Cabelos bonitos.  Raven afastou a ala do maio para ver como ia o bronzeado.  Aposto que ele est na universidade.
Uns vinte anos...
	Um homem mais velho.  Surgiu um brilho audacioso no olhar de Amanda, que ajeitou o biquini para ficar mais chamativa.  Talvez eu v falar com ele.
	Sei.  Raven procurou a caixa de isopor com refrigerantes em lata.  Voc  quase to tmida quanto Charli. S fala...
	Sobraram biscoitos?  Sunny passou por Raven para pegar a bolsa lotada de salgadinhos e biscoitos.
	E voc?  indagou Amanda a Raven. - No a vejo convidando os rapazes para sair...
	No sou tmida  declarou Raven, soltando o rabo-de-cavalo e espremendo a gua salgada dos longos cabelos cas
tanho claros.  Apenas seletiva.
	Sim, deve ser por isso que nenhuma de ns tem namorado  concluiu Sunny, com a boca cheia de biscoito.  Por sermos seletivas demais...
	Do que est falando?  indagou Charli.  Voc tem Kirk.
	Tinha Kirk.
Charli, Raven e Amanda trocaram olhares de desnimo. Sunny suspirou. Pegou outro pacote de biscoito e o fitou. No demonstrava a vivacidade costumeira.
	Nade de mais. Kirk vai para a Universidade Stanford, na semana que vem, e eu j comecei como garonete l na Wafflemania. Sempre soubemos que no ia dar certo.
	Mas pensei...  Charli mordiscou o lbio.  Pensei que gostasse dele.
	Fizeram bem em terminar  opinou Amanda, com seu pragmatismo costumeiro.  Ela acaba de arranjar um emprego aqui em Long Island. Kirk vai passar os prximos quatro anos na Califrnia. Relacionamentos de longa distncia no vo para a frente.
	Lamento, Sunny.  Raven afagou o ombro da amiga, buscando, como sempre, demonstrar empatia e compaixo.  Tinha esperana de que vocs dois arranjassem uma soluo.
	No foi nada, est bem?  Sunny atirou o biscoito na areia branca e deitou-se de barriga para baixo.  O namoro no era to srio assim. Quero dizer, ele nem me perguntou se eu queria ir para l com ele. Acho que est ansioso para sair com todas aquelas universitrias...  Como ningum se manifestava, acrescentou:  De qualquer forma, no vou trabalhar naquela espelunca por muito tempo. No precisarei... L  um bom lugar para se conhecer rapazes.
Amanda completou a ideia:
	E um desses rapazes vai arrebat-la e voc estar casada antes do Natal.
	Ora, isso pode acontecer  devaneou Sunny.  Aposto que arranjo um marido mais rpido na Wafflemania do que voc em Cornell.
	Acontece que eu no quero arranjar um marido!  retificou Amanda.  Quero seguir carreira.
	Por que no pode ter os dois?  questionou Charli.
	No tenho nada contra o casamento  esclareceu Amanda.  S no tenho ideia fixa, como Sunny. Somos jovens! Acabamos de nos formar no ensino mdio! Vamos viver a vida antes de nos estabelecer.
Sunny enrolou a camiseta e colocou-a debaixo da cabea, como um travesseiro.
	Acho que s vou comear a viver de verdade quando me estabelecer com o homem certo e ter alguns filhos. Quero o tipo de felicidade que meus pais tm. Que h de errado nisso?
Ningum falou por alguns minutos. Uma gaivota veio tomar posse do biscoito jogado. Uma dupla de crianas sorridentes passou correndo, chutando areia para cima da colcha. As moas sentaram-se e partilharam um frasco de bronzeador, passando a loo nos braos e pernas e nas costas uma das outras.
Charli rompeu o silncio:
	Podamos ajudar Sunny.  As outras olharam-na interrogativas.  Quero dizer, somos suas melhores amigas, certo? Casar-se, ter filhos...  o que ela quer mais do que tudo. Vamos tentar arranjar o homem certo para ela. Foi assim que minha av conheceu o meu av. As famlias os colocaram juntos e eles so felizes h cinquenta e sete anos. As vezes casamentos arranjados do certo.
	Agora estou preocupada com vocs  disse Amanda, olhando incerta para Charli e Sunny.
	No sei... talvez Charli tenha razo  considerou Raven.
 H quanto tempo nos conhecemos?
	Desde sempre  replicou Charli, ajeitando o maio para cobrir o mximo possvel de pele.  Desde o jardim de infncia.
	Somos amigas h uns doze anos  calculou Raven.
	As quatro mosqueteiras.  O sorriso de Sunny voltara.
  assim que meu pai nos chama.
Charli comeou a fazer uma trana com os longos cabelos loiros de Amanda.
	Minha av nos chama de Club Nuziale.
	O que quer dizer?  indagou Amanda.
	Clube do Matrimnio.
	De onde ela tirou isso?
	Acho que  porque estamos sempre falando de garotos.
	E isso significa que s temos casamento na cabea?  Amanda revirou os olhos.  Isso  to antiquado.
	E bem a cara da minha av  retrucou Charli, com um sorriso terno.
Sunny apoiou-se nas mos, os braos esticados.
	Antiquado no significa que  ruim.
	Clube do Matrimnio  divertiu-se Raven.  Eu at que gosto.
	Oh, no, voc tambm!  Amanda atirou a toalha mo lhada em Raven.
A outra esquivou-se ao ataque e sentou-se de pernas cruzadas, encarando as amigas.
	E que tal isto... Ns somos a Aliana do Matrimnio.  Ela aguardou enquanto as amigas gemiam ao entender o duplo sentido e acrescentou:  O fato  que ns sempre fomos amigas.
Passamos por muitas aventuras juntas.
	At a paixonite de Amanda pelo professor Richards  provocou Sunny.
	Ora, pelo menos eu nunca senti nada por Jimmy "Elo Perdido" de Luca  rebateu Amanda.
As garotas gemeram mais alto e Sunny se defendeu.
	Eu tinha doze anos! No conseguia tirar os olhos daquela testa larga... Vocs nunca vo me deixar esquecer?
	Nunca contamos a mais ningum.  Charli prendeu o coque francs de Amanda com uma presilha.  Nossos segredos so secretos.
	A questo  que sempre estivemos presentes, sempre fomos amigas  continuou Raven.
	E sempre seremos  prometeu Sunny.
	Sabemos que todas queremos nos casar algum dia. Algumas querem se casar amanh.  Raven indicou Sunny.  Gostei do que Charli disse sobre ajudar Sunny. Gosto de pensar aue todas se empenhariam e ajudariam, se uma de ns precisasse.
Amanda torceu o nariz.
	Do que est falando? De bancarmos as casamenteiras ou algo assim?
O olhar de Raven brilhou de excitao.
	 exatamente disso que estou falando.
	Francamente  reclamou Amanda.  No somos to perdedoras a ponto de precisar de ajuda para marcar um encontro.
Amanda arrependeu-se imediatamente do que dissera. Mas era tarde demais. No momento tenso que se seguiu, ningum olhou para Charli, que parecia preocupada com a estampa da colcha sobre a areia.
Com diplomacia, Raven voltou ao assunto:
	Bem, falando por mim mesma, s vezes  bom ter toda a ajuda possvel.
Sunny declarou:
	Bem, falando por mim, no estou to desesperada a ponto de precisar que algum me arranje um marido. Podemos retomar o assunto quando eu fizer vinte anos.
	Ento, vamos combinar  sugeriu Charli.  Quando Sunny fizer vinte anos, se no estiver casada, ou noiva, ou algo assim, as demais vo lhe apresentar um marido em potencial.
	Um momento.  Sunny ergueu a mo.  Esse pacto tem que incluir todas ns. De jeito nenhum ficarei isolada nisso.
	Ento, no pode ser aos vinte anos  protestou Amanda.  Eu ainda estarei na universidade aos vinte anos. E provavelmente a caminho da ps-graduao.
	Vinte e cinco, ento  sugeriu Raven.
	No, preciso de um tempo para me firmar na carreira primeiro.  Amanda vestiu uma camiseta larga que funcionava como sada de praia.  Trinta anos, ou no contem comigo.
Sunny riu.
	Trinta! Tudo bem, eu as ajudarei a encontrar homens quando estiverem com trinta anos. Talvez meu marido e cinco filhos ajudem.
	E se aquela para quem vamos arranjar um marido no gostar da escolha?
Raven pensou um pouco.
	Bem... ela ter de dar uma chance ao homem. Um perodo no qual  obrigada a sair com a escolha, desde que ele esteja interessado.
	Mesmo que ele seja um porco?  indagou Amanda.
	Ns no vamos apresentar nenhum porco a ningum  esclareceu Sunny.  Precisamos confiar no discernimento do grupo... mesmo que no concordemos unanimemente com a escolha, a princpio. Como amigas que se conhecem mais do que ningum, devemos saber o tipo de homem de que cada uma precisa.
	Que tal trs meses?  sugeriu Raven.  Aquela que for objeto da ao do grupo ter que sair com o escolhido por trs meses antes de dispens-lo.
As outras concordaram.
	E contamos ao camarada que ele faz parte de um esquema casamenteiro?  indagou Charli, preocupada com aspectos tcnicos, como se tivesse certeza de que completaria trinta anos solteira.
	De jeito nenhum.  Sunny meneou a cabea vigorosamente.  Eu morreria de vergonha. Precisa ser feito sem que ele saiba.
	Por que voc morreria de vergonha?  desdenhou Amanda.  Pensei que voc seria aquela com marido e cinco filhos.
Sunny fez uma careta.
	Temos que concordar com este pacto. Portanto, pensem bem, todas  aconselhou Raven, e imediatamente indagou:  Muito bem, tempo encerrado. De acordo?
	Sim  disse Charli.
	Estou nessa.  Sunny voltou-se para Amanda.  E voc?
	Oh, que mal h. Dever valer umas boas risadas.
Raven lanou o brao na direo das outras, iniciando o ritual que acompanhava toda promessa solene que faziam desde o jardim de infncia. As amigas seguiram a norma. Entrelaando os dedos e segurando firme o smbolo de unio.
	A Aliana do Matrimnio fica assim instituda  entoou Raven.
	Embora nenhuma de ns venha a precisar disso  desdenhou Sunny.

CAPITULO I
	Foi ideia sua, Raven.
	Quantas vezes vai me lembrar disso?  Raven afastou o prato pesado com as migalhas de seu bolinho de milho assado e apoiou os cotovelos na mesa. Enfrentou a expresso convencida de Amanda.  ramos crianas quando fizemos esse pacto, estvamos terminando o ensino mdio. Tnhamos estrelas no olhar.
Amanda ajeitou o leno de seda junto ao decote do conjunto de crepe de seda cor cereja.
	Voc parecia muito sria sobre esse assunto na ocasio. At fez um voto solene, se me lembro bem. E foi tudo...
 No repita isso.
As duas ocupavam sua mesa de costume na Wafflemania, num cantinho da seo de no-fumantes. De costas para a porta, Raven no percebeu a chegada de Charli at ela puxar uma das cadeiras vagas e sentar-se, ainda usando o casaco de l.
Os anos amenizaram as feies fortes e comuns de Charli. Naquele momento, apesar dos cabelos desgrenhados pelo vento e das faces rosadas devido ao frio, podia-se dizer que estava bonita, embora Raven duvidasse de que Charli um dia se visse como algum alm da tmida filha caula do casal Rossi.
	Podia ter chegado antes  declarou Charli.  Mas um dos meus alunos da banda sinfnica precisou de ajuda com uma pea difcil.
	Raven est querendo livrar-se do pacto da Aliana do Matrimnio  denunciou Amanda.
Charli olhou para Raven.
	Mas ns todas concordamos! Fizemos uma promessa so lene! E nunca quebramos nenhuma promessa. Nunca.
	Ningum est quebrando promessa nenhuma. Eu s optei por no aceitar a ajuda de vocs para encontrar um marido, s isso.
Algum introduziu um bule de vidro entre as ocupantes da mesa.
	No  bem assim  replicou Sunny, completando com caf fumegante a caneca de Raven.  Voc no pode recuar agora.
	Eu no me lembro dessa regra.
	Eu me lembro.  Sunny piscou para as demais.  Vocs se lembram dessa parte, no ? Ningum pode bancar o avestruz. 
	A clusula do avestruz.  Charli despiu o casaco.  Como pude me esquecer?
Amanda imitou a ave e emitiu sons, chamando a ateno dos outros clientes. Raven gemeu.
	Por que eu?
	Porque voc  a primeira a completar trinta anos  respondeu Charli.
Amanda recostou-se com um sorriso maroto.
	No pensou nisso quando props esse esqueminha, no ? Lembra-se de que foi ideia sua?
Sunny olhou ao redor de soslaio... sem dvida procurando a chefia... antes de ocupar a cadeira vaga. O uniforme de po-lister cor-de-rosa continuava to horrvel e deselegante quanto na primeira vez em que vestira o modelo, doze anos antes. Apresentava uma mancha de caf na barra da saia curta. Sunny prendera de lado os cabelos ruivos ondulados, deixando-os soltos atrs at as costas.
	Contou a ela sobre o camarada?  indagou Sunny.
	Voc j escolheu algum?
	Amanda achou um  disse Charli.  Eles trabalham juntos.
	Espere um pouco.  Raven ergueu as mos, desesperada ante o turbilho de medidas casamenteiras que deflagrara.  Eu nunca concordei com isso.
	Claro que concordou  corrigiu Sunny.  H doze anos.
	Ele se chama Brent Radley,  o gerente de vendas na Parquinho  prosseguia Amanda, citando a revista infantil que publicavam.  Ele  extrovertido, bem-humorado, sem falar... que  bonito  completou, com um olhar perspicaz para Raven.
	Se esse camarada  to sensacional, por que voc mesma no est atrs dele?
	Dois ex-maridos so o bastante para uma vida inteira, obrigada.
	Quem disse que tem de se casar com ele?  questionou Raven.  Apenas divirta-se. O seu ltimo divrcio foi h dois meses. Quando vai comear a sair novamente?
	Quando e se eu comear a sair novamente, pretendo ficar bem longe de homens casadouros. No entrarei na igreja uma terceira vez.
	Mas o pacto...  observou Charli.
	O pacto  para vocs que querem um marido  esclareceu Amanda.  Continuando, Brent tem trinta e quatro anos, nunca se casou e sinto que ele est procurando uma moa especial para se estabelecer. Eu contei a ele sobre voc, Raven.
	Voc no falou do pacto da Aliana do Matrimnio, falou?
 indagou Charli.
	Claro que no. Ele acha que estou arranjando um par para uma amiga.  Ela se voltou para Raven.  Ele estar na sua casa hoje s sete e meia. Traje casual.
	Esta noite?
	Eu no queria lhe dar muito tempo para pensar no assunto.
	Voc marcou um encontro s cegas para mim? Sabe que eu odeio encontro s cegas!
	Relaxe. Voc provavelmente vai se sair bem. Brent  do tipo que deixa a gente  vontade  garantiu Sunny.
	Ele parece um bom rapaz  acrescentou Charli.
	Vocs j o conhecem?  Raven fitou suas melhores amigas.  Prepararam isso tudo nas minhas costas?
	Apenas d-lhe uma chance  pediu Sunny.  Ora, talvez consiga hipnotizar Brent e ele se apaixone perdidamente por voc.  Agitou os dedos em sua linha de viso e adotou um tom sinistro:  Voc est cada vez mais sonolento... Voc sente necessidade de comprar um anel de diamante...
	Se fosse to fcil, eu j teria me casado h muito tempo.
Mas se esse Brent quiser parar de fumar ou emagrecer, podemos at tentar.
Raven era hipnoterapeuta havia seis anos e montara um consultrio em casa. Costumava empregar a hipnose no tratamento de pacientes, ajudando-os a eliminar hbitos alimentares destrutivos, superar medos ou simplesmente melhorar o desempenho no golfe.
Do outro lado do salo, o patro de Sunny, Mike, capturou seu olhar e indicou impaciente a mesa com fregueses que aguardavam para ser atendidos.
	Esperem um pouco  resmungou Sunny, e levantou-se.
Raven suspirou.
	Est bem, vou dar uma chance a esse Brent.
	Trs meses  lembrou Amanda.  Desde que ele esteja interessado, voc tem de manter o compromisso por trs meses. Quem foi mesmo que sugeriu essa regra? Oh, sim, no foi...
	Espere at chegar a sua vez  alertou Raven.
	Mesmo que eu estivesse procurando um marido, sou a ltima da fila. Charli  a prxima... ela faz trinta em abril.
Charli riu. Raven buscou sua mo e acariciou-a, vendo que ela precisava de todo o apoio e segurana.
	Ento, ser a minha vez.  Sunny pegou o bule de caf.
	Meu aniversrio  em primeiro de julho. No tero que torcer meu brao.
	Faa-nos um favor  provocou Amanda.  No contrate o bufe sem antes conhecer o noivo.
Mike veio na direo delas, incentivando Sunny a ir para a mesa sem atendimento.
	No acredito que ainda estou trabalhando nesta espelunca 	resmungou ela, antes de se afastar.
Raven relaxou na cadeira, lamentando no ter ficado de boca fechada naquele dia na praia, doze anos antes.
	Este lugar  interessante  comentou Raven, apreciando a decorao do Bom Humor, um clube para onde Brent a levara. 
	Tenho meus contatos  gabou-se Brent, com seu sorriso terno ao qual ela j se acostumara na meia hora desde que ele tocara a campainha de sua casa.
As amigas no tinham inventado nada. Brent Radley vestia-se bem, era calmo e definitivamente... como Amanda dissera?... bonito. Cabelos escuros, olhos azuis, mais de um metro e oitenta, enxuto. Portava-se como um homem ciente do prprio sex appeal... caracterstica que ela em geral abominava. Mas era to simptico e atencioso que Raven decidiu dar-lhe um crdito.
Raven chegara a uma concluso aps trocar de roupa trs vezes, finalmente optando por um vestido longo de seda avermelhado com detalhes em croch bege. Se suas amigas tinham tido todo aquele trabalho por sua causa, o mnimo que podia fazer era botar f no clube da Aliana do Matrimnio. Completara o visual aplicando pouca maquiagem < ajeitando os cabelos loiros curtos com secador e escova.
A garonete aproximou-se, entregou-lhes o menu e trocou saudaes com Brent, que obviamente era cliente regular. Ela tomou nota dos pedidos de aperitivo e afastou-se.
Nas paredes de painis escuros, o Bom Humor exibia capas de revistas antigas em molduras. Todos os gneros estavam representados, de detetive a fico-cientfica, de aventura a caubi. As toalhas de mesa no eram todas iguais e os pratos tambm no pertenciam a um conjunto s, o que dava ao ambiente um ar de descuido caseiro. Msica suave no estilo bluegrass amenizava o burburinho e as risadas. Raven sentiu aromas tentadores: torradas de alho, molho de tomate suculento, frituras...
	Kecomendo a pizza rstica  disse Brent, inclinando-se para a frente para mostrar no menu.  Diz a poro individual, mas  do tamanho de uma calota.  Abriu os braos para ilustrar.
	Feito.  Raven fechou o menu. A garonete voltou com a cerveja de Brent e a gua mineral de Raven e anotou o pedido para o jantar.
	Voc disse que tem contatos aqui.  Ela sorveu um gole da gua mineral.  Conhece o proprietrio?
	Pode-se dizer que sim.  Brent chamou a ateno de algum e acenou.   o meu irmo.
Raven voltou-se para ver um rapaz chegando por entre as mesas. Ele caminhava com graa masculina e uma atitude de posse que indicava quem era antes mesmo de alcanar a mesa deles e bater sonoramente no ombro de Brent.
Sem esperar por apresentaes, ele se voltou para Raven e foi franco:
	Quero que saiba quanto nossos pais apreciam a sua disposio em sair com este ser ignbil.
Ela no se intimidou.
	Era o mnimo que eu podia fazer, considerando que se apresentaram como fiadores.
Surgiu um brilho no olhar dele e Raven teve a impresso de ter passado em algum teste.
	Trouxe os tranquilizantes dele?  brincou ele.  E o babador?
	Meu espeto de churrasco  tudo de que preciso.  Ela bateu na bolsa a tiracolo grande que pendia na cadeira.  Disso e de alguns brinquedos coloridos com cantos arredondados.
	Nada de partes pequenas, espero. J viu um homem adulto engasgar com sapatinhos de boneca? No  bonito de ver.
Rindo e meneando a cabea, Brent protestou:
	Vocs dois j acabaram?  Mas o irmo nem lhe deu ateno.
	Sou Hunter Radley.  Ele estendeu a mo e ela aceitou o cumprimento.
	Raven Muldoon.  Ela sentiu a textura da pele, a fora contida no aperto de mo. Aps um segundo, rompeu o contato.
A semelhana fsica entre os irmos era visvel, embora Hunter obviamente fosse muito mais novo. Os dois eram morenos e tinham os cabelos ondulados. Brent usava-os curtos e bem aparados; Hunter mantinha o seu na altura do colarinho. A camisa parecia macia devido ao uso e os botes superiores estavam livres, revelando o peito peludo. A mesma penugem surgia nos braos sob as mangas arregaadas. Raven notou que ele no usava aliana.
	Por que se chama Raven?  indagou Hunter.  Com esse nome, corvo em ingls, devia ser morena.  Pegou uma mecha do cabelo loiro escuro.
Se algum outro homem que acabara de conhecer fizesse isso, ela protestaria com a impertinncia. Mas, de algum modo, Hunter j no lhe parecia um estranho.
	Minha me era muito f de Edgar AUan Poe  explicou, esperando para ver se ele pegava a deixa.
Pois ele pegou em tempo recorde.
	"Certa vez numa noite triste, enquanto eu ponderava, fraco e cansado, sobre um volume curioso e extico de conhecimento esquecido..."  Passou a declamar em ritmo mais acelerado.  "De repente, ouvi batidas."
	Voc pulou uma parte.	
	"Como se algum batesse com delicadeza."  Ele bateu na mesa.  "Batidas na minha porta. Uh, algo, algo... disse o corvo..."
Os trs completaram juntos:
	"Nunca mais".
	No havia uma Lenore no poema? A Lenore perdida?
Por que sua me no a batizou assim?  indagou Brent.
	Minha irm mais velha chegou primeiro. Eu no lamento.
Hunter fitou seus cabelos, os olhos, a boca.
	Estou surpreso por ela no ter escolhido Annabel  comentou, envolvendo-a com a voz grave e suave.	Sob a iluminao difusa do clube, ela tentou adivinhar a cor dos olhos. Castanhos ou azuis? Pareciam mudar de cor a cada respirao.
	Annabel? Agora voc me confundiu  disse Brent.
Raven engoliu em seco e voltou a ateno ao acompanhante.
	Annabel Lee. Outro poema de Poe...  Um comovente poema de amor.
Hunter enfiou as mos nos bolsos da cala jeans desbotada, parecendo constrangido de repente. Mal disfarou o alvio quando a garonete chegou trazendo o jantar.
	Lisa  disse ele.  Nada de cobrar esta mesa.  por conta da casa.
	Eu podia fingir discutir com voc  retrucou Brent, oferecendo os pegadores para Raven.  Ou podamos pular essa parte.
Hunter voltara a sorrir.
	Tenha aquele espeto de churrasco  mo.
Com isso, foi-se.
Ento, Brent demonstrou grande interesse pelo trabalho de Raven. Perguntou como ela se tomara hipnoterapeuta, que tipo de treinamento recebera, que tipo de problemas tratava., provando que no era o tipo de homem que s queria falar sobre si mesmo. Raven admirou a qualidade, mas no o bastante para concentrar-se na conversa.
Brent no notou. Felizmente. Parecia alheio ao que acontecera entre a acompanhante e seu irmo mais novo.
Mas o que acontecera exatamente? O legendrio encontro de almas gmeas que s ocorria uma vez na vida? Ou simplesmente atrao sexual?
Como se atrao sexual, quando identificada, pudesse ser simples. De qualquer maneira, o fenmeno no fora unilateral. Hunter sentira algo tambm. E ficara to constrangido quanto ela.
Raven ouviu o homem que as amigas consideravam adequado para marido elogiar sua iniciativa empresarial e pedir outra cerveja. Brent era um bom rapaz, se a primeira impresso valia algo. Comprometera-se a sair com ele por trs meses, desde que ele estivesse interessado e, a julgar pelo modo como a olhava, estava.
Raven jamais desejara ficar entre irmos, encorajando as atenes de um enquanto saa com outro. E, se interpretara Hunter corretamente, ele no tomaria parte em algo assim, tampouco.
O jantar prosseguiu sem incidentes. s luzes do clube diminuram e o palco ganhou vida enquanto os pratos eram retirados. Hunter subiu ao palco e pegou o microfone.
Raven sentiu o corao palpitar.
Raios!, pensou ela. Por que nada era simples?
Hunter agradeceu a presena de todos no Bom Humor e disparou algumas frases espirituosas para animar a plateia. Parecia to  vontade l que, ao no suscitar risos com a segunda piadinha, fez graa com o fato. Raven assistia maravilhada, em parte porque jamais seria capaz de fazer uma apresentao como aquela, em parte porque Hunter estava bem perto, destacado sob luzes fortes, e podia apreci-lo  vontade.
Esperava-se que olhasse para ele. Seria desfeita se no olhasse! Excitada, acompanhava cada movimento sexy e relaxado de Hunter entretendo a plateia, absorvendo a voz que evocava lenis e champanhe.
	Temos uma convidada especial esta noite  anunciou Hunter, estendendo o brao na direo de Raven.  A primeira e nica Annabel Muldoon!
Ela se voltou para a plateia ao mesmo tempo que um canho de luz a atingia, ouvindo cochichos do tipo: "Annabel quem?", enquanto alguns afirmavam conhec-la, o que era ainda mais hilrio. Brent obviamente divertia-se a valer, controlando-se para no rolar de rir.
Raven sentia todos os olhares fixos em sua pessoa.
Hunter acenou do palco.
	Suba aqui e diga ol para seus fs, Annabel! Que acham, gente? Vamos incentivar Annabel Muldoon a subir aqui!
A plateia decidira que Raven era "algum" e aplaudiu vigorosamente, gritando e assobiando em incentivo.
Ofegante e trmula, Raven mantinha as mos no colo. Sabia que no podia contar com as pernas. S conseguiu menear a cabea.
	V l!  incitou Brent.  A multido est alucinada. Divirta-se.
	Vamos, Annabel, no seja tmida!  disse Hunter, na borda do palco, a menos de trs metros da mesa deles.
Ela ergueu o olhar, esforando-se para controlar o pnico, rezando para que seu constrangimento no estivesse to evidente. Queria dizer algo, qualquer coisa que encerrasse aquela tortura, mas seu crebro emperrara, e a lngua tambm.
Hunter deixou de sorrir por um instante ao fit-la. Afastando-se, sinalizou ao tcnico de iluminao para que apagasse o canho.
	Oh, bem, vocs sabem como as celebridades so caprichosas  justificou  plateia, que emitiu um gemido coletivo de decepo. Algum vaiou.  Da prxima vez, procurarei sua agente antes. Agora, vamos receber Richie Finley!
A plateia aprovou entusistica e Hunter liberou o palco para um homem obeso de suter bege e cala de tecido canelado.
	Meu nome  Richard Finley  comeou ele, cara-de-pau.  Mas o pessoal me chama de Big Dick.  Algum no fundo da plateia riu da abertura fraca.
Aos poucos, Raven superava a sensao de pnico. Esfregando as mos para aquec-las, concentrou-se em respirar devagar pelo nariz.
No palco, Finley arrastava-se com sua apresentao. O pblico no foi muito receptivo, mesmo quando ele disparou duas boas piadas, e Raven espantava-se com sua audcia. De onde Finley tirava coragem para subir num palco? Onde ele encontrava autoconfiana para se colocar sob refletores e abrir a boca?
Depois de Finley, uma comediante negra divertiu os clientes com histrias de sua infncia numa grande famlia problemtica. Ela se saiu melhor que o predecessor, graas a um excelente senso de ritmo e expresses faciais eloquentes. Quando ela deixou o palco, o pblico pedia mais.
Como terapeuta, Raven impressionara-se com a maneira de aquela mulher analisar um episdio... seu prprio nascimento desventurado... tornando-o algo positivo. Assemelhava-se ao processo de cura que seus pacientes de fobia experimentavam depois que os ajudava a superar e controlar seus medos.
Raven s esperava que seus pacientes nunca descobrissem como era hipcrita. Sabia que nunca encontraria a fora interior para encarar seu prprio medo incapacitante. Aquela noite seria mais um lembrete de seu defeito humilhante.
O pblico riu de tudo que o terceiro e ltimo cmico contou, um senhor de meia-idade grisalho com piadas sujas na ponta da lngua. Era engraado, mas de estilo um tanto pesado. Raven percebeu que havia vantagens em se apresentar por ltimo. O pblico j estava solto graas aos dois comediantes precedentes e, principalmente, eufrico com o lcool das bebidas.
Vrias pessoas aproximaram-se da mesa deles, com papel e caneta, pedindo-lhe um autgrafo, para divertimento de Brent.
"Minha namorada  uma grande fa sua", "Eu a vi no programa de variedades, quando saiu da reabilitao?", diziam. Raven percebeu que era mais fcil dar-lhes o que queriam e, no final da noite, j desenvolvera uma assinatura "Annabel" diferente e fluida.
Aps o show, Brent pediu licena e foi ao toalete. Em segundos, Hunter materializou-se na cadeira vaga, como se houvesse aguardado a oportunidade.
Raven esperara no ter de encar-lo. Ele sabia. Ela vira no olhar dele, durante aquele breve momento aps o qual ele a tirou da ribalta.
Antes que ela imaginasse uma forma de minimizar o incidente, Hunter a encarou.
	Desculpe-me.
Ela respirou fundo.
	No falemos mais disso.
Hunter inclinou-se para a frente e cruzou os braos sobre a mesa.
	Raven. Se eu soubesse que aquilo a deixaria constrangida, eu nunca teria...
	Eu sei.  Ela sentia a compostura se esvaindo.
	Imaginei que, aps toda aquela brincadeira com Brent...
	Mas aquilo foi s entre mim e voc.  Ela retirou o guardanapo do colo.
	Bem, eu achei que voc gostaria de subir l e brincar...
um pouco como Sonny e Cher. Voc  engraada. E  rpida na rplica.
	... que sempre tive problema com isso.
Como ela no especificava, ele concluiu:
	Fala de se apresentar em pblico?
	Bem, de falar em pblico. Nunca pensei em subir num palco.
Ele franziu o cenho, inconformado.
	Deveria, sabe. Voc  espontnea.
Raven riu daquela declarao absurda.
	De jeito nenhum!

	Agora voc conseguiu. No resiste a um desafio.  Hunter sorriu.  Desculpe-me. Foi presunoso da minha parte.
	Sim, foi. Mas no houve prejuzo. E, de qualquer forma, s refora o que j sei... tenho que trabalhar nisso.
	No qu?
	Em mim mesma. J est na hora de eu lidar com o problema. Lalofobia, chama-se. Medo de falar em pblico. No consigo nem fazer apresentaes informais, ou dar uma palestra sobre a minha profisso na escola.
	O que voc faz?
	Sou hipnoterapeuta.
Hunter piscou.
	No brinca.
	No  to divertido quanto um clube de humor, mas recompensa em termos pessoais e paga as contas.  Raven deu uma olhada no salo, procurando Brent.
Observando-a, Hunter recostou-se na cadeira.
	Se est falando srio sobre tratar do seu medo de falar em pblico, s quartas  noite livre aqui.
	Noite livre?
	Noite de amadores. Qualquer um pode subir ao palco e fazer uma apresentao cmica.
	Obrigada, mas acho que no estou preparada para tanto. Prefiro comear com algo mais fcil... como uma mensagem  nao.
Ele se levantou.
	Bem, o convite est feito, se mudar de ideia.
Nesse instante, Brent chegou.
	Convite para qu? O que est fazendo? Paquerando a minha acompanhante escondido?  ralhou, brincando.
	Estou tentando convencer Raven a se apresentar aqui na noite dos amadores.
	tima ideia  apoiou Brent, que aparentemente no notara o ataque de pnico dela pouco antes.  Oua, Raven, gosta de esquiar?
	Gosto. Tenho botas e esquis, mas ainda no fui esquiar nesta temporada.
	H um parque onde adoro esquiar. Vou l no domingo. Quer vir tambm?
	Claro, eu adoraria.
	Por que no vem tambm, Hunter? Leve mais algum. Depois, podemos preparar um jantar.
Leve mais algum. Raven deduziu que Hunter no tinha nenhuma namorada fixa e se revoltou com a prpria satisfao. No podia cobiar o irmo de Brent.
Hunter fitou Raven, que desviou o olhar rapidamente.
	Eu vou, mas no fico at muito tarde. Tenho que abrir o clube no domingo.
	No tem ningum que faa isso por voc?  indagou Brent.
	Sim, talvez...  considerou Hunter, e Raven desconfiou de que ele estava to incerto sobre aquele programa quanto ela.
	Oh, raios! Vou deixar Matt abrir no domingo.  Hunter sorriu.  Que pode acontecer de errado?

CAPITULO II

Hunter viu o irmo exibicionista colocar mais .distncia entre eles na trilha nevada. Era isso o que acontecia quando se tinham os fins de semana livres, concluiu... adquiria-se destreza em assuntos que no tinham nada a ver com contratar comediantes, manter provises e equilibrar-se na fina linha que separava a tinta azul da vermelha nos livros-caixa. Hunter no trocaria o Bom Humor por nada; porm, s vezes invejava o emprego de Brent na revista infantil Parquinho e o salrio que ele recebia l todo ms.
A inveja no parava ali, pensou, olhando por sobre o ombro para Raven, que se aproximava deslizando. Era uma esquia-dora competente e graciosa, mas no muito rpida. Ela abriu o zper do bluso, revelando a blusa de l preta de gola olmpica enfiada na cala jeans velha. Prendera os cabelos, mas boa parte j se soltara, emoldurando seu belo rosto.
Ela sorriu, ofegante, as faces rosadas de frio e do esforo. O dia estava claro e o sol j ia alto no cu, emprestando um tom dourado a seus olhos castanhos. Tinha os cabelos e os olhos praticamente da mesma cor, reparou. Uma dama de vinte e quatro quilates.
A tempestade do dia anterior acrescentara uns quinze centmetros de neve sobre a camada j acumulada e agora deslizavam entre as rvores esparsas, encontrando clareiras aqui e ali. A luz era tpica do inverno e o ar com que enchia os pulmes, fresco e limpo. Estava contente por ter vindo.
	Brent esquia muito bem  comentou Raven, olhando entre as rvores.  Eu j o perdi de vista.    
	Voc tambm no  m.
	Oh, eu sou lenta. Estou atrasando todo mundo.
Kirsten voltara para agrupar-se a eles.
	Voc no est atrasando ningum, Raven. No estamos numa corrida.
Apesar das palavras gentis, Hunter sabia que Kirsten con-tinha-se bastante. Atleta nata, aprendera a esquiar aos trs anos. Como acompanhante de Hunter, ela sem dvida considerava rude deix-lo comendo neve, embora Brent aparentemente no sofresse de tal desconforto em relao a Raven. Na verdade, Kirsten no conseguiria deixar Hunter para trs, se ele no quisesse; afinal, ele era mais forte. Mas algum tinha que ficar com Raven. Ao menos, convenceu-se disso.
	Oua, Kirsten, voc no precisa nos esperar  afirmou Hunter.  Por que no alcana Brent? Ns vamos em seguida.
Ela hesitou, olhando para as marcas dos esquis de Brent, to ansiosa quanto uma gua na baia de largada.
	V em frente  incentivou ele.  Sabia que Brent acha que nenhuma mulher consegue ganhar dele?
Aquilo bastou. Kirsten estreitou o olhar perigosamente. Com um rpido aceno, foi-se.
	Voc devia ir tambm  disse Raven.
	De jeito nenhum, preciso recuperar o flego  mentiu ele.  Parece que estamos empatados um com o outro.
Ela olhou para ele e, ento, para longe. Fizera isso vrias vezes j. Hunter a deixava nervosa e ele desconfiava saber o motivo. Ele tinha esperana de saber o motivo, o que era pura idiotice de sua parte. A atrao devia ser unilateral, pois ela s tinha olhos para Brent.
Brent, seu irmo, lembrou-se, como fizera centenas de vezes desde a noite de sexta-feira, quando conhecera Raven. Lealdade familiar estava no topo da lista de valores pessoais, algo profundamente arraigado em sua conscincia. No se brincava com lealdade familiar.
O que significava que no devia nem pensar em se envolver com a namorada de seu irmo.
No que ela j fosse a mulher de Brent de fato. No ainda. Estavam no segundo encontro, mas no fazia diferena. Raven encontrava-se alm dos limites. Ponto final.
O que no o impedia de imaginar o que acontecera quando Brent a deixara em casa depois do jantar, na sexta-feira. Ela o convidara a entrar? Eles acabaram na cama? Podia perguntar a Brent, mas desconfiava de que no gostaria da resposta.
Hunter plantou os esquis na neve e pousou a mochila no cho. Retirou uma garrafa trmica.
	Eu vim preparado.
	Caf?
	Melhor.  Ele abriu a garrafa e a estendeu para que ela sentisse o aroma da bebida.
Raven arregalou os olhos dourados de prazer.
	Chocolate quente!
Hunter serviu um pouco na tampa da garrafa, que tinha dupla funo, e passou-a para Raven. Ela envolveu o copo com as mos enluvadas, levou-o aos lbios e sorveu um gole. No pde suprimir um gemido, de olhos fechados, a expresso de puro xtase.
Mais?  indagou ele, quando ela devolveu o copo.
Raven recusou e agradeceu, dizendo-se satisfeita. Ainda havia um pouco no copo e ela observou Hunter acabar a poro.
	Seus olhos  comentou, fitando-o detidamente.
Ele sorriu e serviu-se de mais chocolate quente.
	Uma anomalia da natureza.
	Um azul e outro castanho.  Ela riu, divertida.  Como se a natureza no conseguisse se decidir.
Hunter abriu os braos.
	Uma evoluo tomando forma.
Raven abriu a boca para comentar algo, mas deteve-se. Hunter imaginou se ela ia comentar sobre o estgio da "evoluo". Mas ela s observou:
	Kirsten  gentil.
	Sim, ela . Eu a conheci numa viagem para degustao de vinhos nos vinhedos de North Fork.  Hunter deliciava-se com o chocolate.
	 mesmo? Ela emprestou o documento de identidade de quem?
Ele riu, ainda com chocolate quente na boca, mas conseguiu engolir.
	Sim, eu sei.  Ele imaginou que impresso Kirsten transmitira a Raven, com aquelas tranas, voz infantil e rosto de bebe.  Ela  s cinco anos mais nova do que eu.
	Ento, isso o deixa com quanto? Dezoito?
	Ah, ter dezoito anos novamente... Estou mais para vinte e seis.
O olhar de Raven brilhou, de surpresa ou desnimo, talvez uma mistura de ambos.
Sou o beb da famlia.  Hunter tampou a garrafa trmica e guardou-a na mochila.  Brent  o mais velho, depois vem nossa irm, Tina. Pobre garota, fez trinta anos h algum tempo e tivemos que ouvi-la se lamentando por ser uma velha solteirona.
Aquela declarao foi recebida com frieza.
	Opinio dela, no minha  jurou ele, erguendo a mo.
	Palavra de honra.
Bem,  terrvel que nossa sociedade voltada para a juventude torne as mulheres to obsessivas com relao  idade. Tenho certeza de que Tina  uma pessoa mais interessante agora do que aos vinte. Ela devia se orgulhar de seus trinta anos.
	Talvez quando ela tiver os sete ou oito anos de experincia que voc tem...
Hunter saboreou o olhar de indignao de Raven por algum tempo antes de apontar-lhe o dedo.
	Peguei voc!
Ela fez uma careta.
	O que aconteceu com todo aquele orgulho de ter trinta anos?
	Estou trabalhando nisso  resmungou ela.
	H quanto tempo est trabalhando nisso?
	Voc no  nada discreto, Hunter, mas eu vou lhe dizer de qualquer forma. Fiz trinta anos na quarta-feira. Dia sete de janeiro.
	Feliz aniversrio. Mas, realmente, pensei que tivesse a minha idade.
	Eu prefiro acreditar nisso. E tanto esforo para renunciar  obsesso da sociedade.
Hunter ergueu a mochila e instalou-a nas costas.
	Alguns rapazes s procuram mocinhas. Isso infla seus egos ou algo assim, acho. Eu mesmo no sou assim.  Acrescentou, rpido:  Nem Brent. No precisa se preocupar com o fato de ele achar voc... Bem, o que quero dizer  que ele gosta de todos os tipos de mulheres. Uma ampla variedade.
Ela ergueu o sobrolho.
	Que ampla variedade?
	Est bem, eu sei o que pareceu.  Pareceu a verdade.
	Eu s quis dizer que ele no  difcil de agradar, s isso.
Raven ergueu o outro sobrolho.
Hunter lanou a cabea para trs, gemendo e rindo ao mesmo tempo. E ele se achava articulado. Viu o sorriso afetado dela.
	Est se divertindo com isso, no ?
	Compense aqueles sete ou oito anos.
	No h dvida de que meu irmo tem um padro muito elevado no que se refere a mulheres.  Hunter indicou a prpria Raven, que revirou os olhos, lisonjeada.  Eu s quis dizer que ele no  como esses camaradas de quem eu falava. 
	Eu sei o que quis dizer  afirmou ela, com um sorriso seguro, mas ento hesitou.  J que est sendo to solcito em relao a Brent, talvez no se importe em me contar... Minha amiga Amanda, para quem ele trabalha, disse que seu irmo anda declarando que quer se ajeitar na vida. Isso procede?
Hunter tentou imaginar Raven Muldoon como cunhada. Pensara nela em centenas de outros papis desde a sexta-feira, em inmeros cenrios exticos e em vrias posies interessantes. Mas cunhada? Nesse papel, no conseguia vislumbr-la.
	Procede.  Pigarreou, esforando-se para banir as imagens perturbadoras.  Brent decidiu encontrar a sra. Certinha. 
No so s as mulheres que comeam a pensar nisso quando atingem uma certa idade.
	Interessante.  Raven estava ruborizada.  Eu no devia ter perguntado.
Ele deu de ombros.
	No estamos falando de nenhum segredo de Estado aqui. Ele provavelmente responderia o mesmo, se lhe perguntasse.
	Bem, eu no poderia fazer isso, mas de qualquer forma no  justo arrancar essa informao de voc.
Raven devia sentir algo forte por Brent, pensou Hunter, se j pensava em compromisso. O que tornava mais provvel que a noite de sexta-feira tivesse acabado num caf da manh no sbado.
	Quanto a mim, casamento  como a paz mundial  declarou. Deslizou o outro brao pela ala da mochila, posicionando-a firme nas costas.  Pode acontecer, em teoria, mas eu no apostaria nisso.
	Voc no pretende se casar nunca?
	O que eu quero  deixar o Bom Humor com dinheiro em caixa, contratar alguns bons comediantes, tornar o clube uma referncia em Long Island. Essa  a minha prioridade, foi o compromisso que assumi quando inaugurei o estabelecimento, h dois anos. Preciso de mais alguns anos e essa  toda a responsabilidade com que posso arcar no momento.
		Bem, voc  jovem  observou Raven, fechando o bluso.  Tem tempo.
	E voc tambm.
Ela o encarou.
	Quero dizer, voc no precisa se apressar, Raven. O mais importante  ter certeza de que encontrou o camarada certo. Trinta anos no significa que alcanou o topo da colina.
Ela no disse nada, apenas ajustou o bluso junto ao pescoo.
	A temperatura est caindo.  Ele bateu na mochila.  Quer mais...?
	No.  melhor irmos atrs dos outros, ou vo mandar os ces pastores.
Ele impulsionou os esquis, seguido de perto por ela.
	Prefiro os so-bernardo, com aquele barrilzinho de rum...
	Nada de amontilado?  provocou Raven.
Hunter olhou por sobre o ombro e a viu sorridente com a referncia a O Barril de Amontilado, de Edgar Allan Poe. Esquiando, iniciou a declamao de outro poema de Poe, a plenos pulmes:
	"Foi h muito, muito tempo. Num reino alm-mar..."
A risada de Raven o aqueceu.
	No me diga que decorou tudo!
Rindo, ele continuou mais alto:
	"Que uma virgem l vivia e que talvez conheam. Chamada Annabel Lee..."
	Tem certeza de que no quer ajuda?  indagou Raven,  porta da cozinha de Brent. Assim que chegaram  casa de estilo campestre na praia norte de Long Island, ele comeara a preparar o jantar.
	No, est tudo sob controle.  Brent sorriu por sobre o ombro e misturou algo na panela grande no fogo.  Experimentou o merlot!
Ela ergueu a taa de vinho.
	Sim,  soberbo. O que voc est preparando? Cheira bem...
	Jambalaya. Esse cheiro  do molho candouille ao estilo Cajun. Vou acrescentar camares no final. A menos que seja alrgica a crustceos.
	No, eu adoro.
	timo. Ento relaxe. Fica tudo pronto em meia hora.
Brent parecia muito  vontade na cozinha, to confiante e capaz preparando uma receita ejambalaya quanto esquiando entre as rvores. Era cordial, extrovertido e autoconfiante. Ra-ven tinha de admitir que se tratava de uma combinao sedutora, sexy at.
Ento, por que no se excitava? Seu corao devia estar disparado e sua mente, area...
Talvez fosse a natureza artificial daquele encontro. As providncias casamenteiras das amigas inibiam a excitao. Aquele relacionamento no se baseava num magnetismo animal espontneo.
Mesmo assim, Raven era madura e experiente o bastante para saber que sentimentos profundos no surgiam da noite para o dia. Uma atrao superficial podia faz-la virar a cabea, mas o amor verdadeiro levava tempo para se manifestar.
Se no tivesse experimentado o tal magnetismo animal espontneo com o irmo mais novo de Brent, no haveria problema algum. Era pura resposta fsica, sabia... e passageira, ou assim esperava.
Ao contrrio de Hunter, Brent tinha inteno de se casar. Raven devia estar satisfeita, considerando como os homens se mostravam vagos quando se tratava de compromisso. Entretanto, pouco antes, quando perguntara a Hunter se o irmo estava realmente procurando uma esposa, s o fizera por comear a levar Brent a srio... e rpido demais. De algum modo, sentia que Brent no lhe era to adequado quanto achavam suas amigas. A ltima coisa que queria era dar corda para depois dispens-lo.
Comprometera-se a sair com Brent por trs meses, mas ainda podia pisar no freio e retardar todo o processo, para ver se eram mesmo compatveis antes de seguir em frente.
 Bem, avise se precisar de algo  avisou, deixando a cozinha.
Passou  sala, com mveis confortveis em tons castanho e avermelhados e leves toques em madeira clara. Kirsten ocupava a namoradeira. Ela soltara os cabelos, emoldurando o belo rosto com ondas castanho brilhantes. Se houvera mudana... bem, ela parecia ainda mais jovem do que antes, mais para dezesseis anos do que para os vinte e um declarados por Hunter.
Mesmo vinte e um estavam bem longe do grande trs-zero.
Trinta. Raven gemeu em silncio. Como deixara isso acontecer?
Hunter estava sentado no cho, entre as pernas de Kirsten, de cala jeans, virado para a namoradeira, recebendo uma massagem nos ombros.
Embora de olhos fechados, ele estava alerta e ouviu quando Raven comentou:
	Seu irmo est l se sacrificando. Ele no quer ajuda. Ocupou uma poltrona de rattan.
	E isso no  timo?  replicou Hunter, com um sorriso. Incrvel que ele ainda tenha energia. Eu estou exausto.
	E eu estou faminta. Brent!  chamou Kirsten.  Sirva o jantar antes que eu desmaie de fome!
Da cozinha, Brent respondeu:
	Ento, ponha a mesa, se est com pressa.
Rindo, Kirsten levantou-se e passou a perna por sobre a cabea de Hunter.
	Ele no tem escrpulo em me colocar para trabalhar!  Foi para a cozinha.
Sozinha com Hunter, Raven tateou o clice de vinho. O silncio constrangedor imperou at que Hunter finalmente disse algo:
	Brent cozinha muito bem.
	Parece  disse ela.  Ele nem segue receita.
Hunter olhou para a porta fechada da cozinha, ouvindo Kirsten e Brent zombarem um do outro. Esperava que a acompanhante voltasse? No se sentia  vontade com a namorada do irmo?
Raven levou o clice aos lbios e sorveu um gole do vinho revigorante. Kirsten saiu da cozinha com uma pilha de pratos e talheres, dirigindo-se  sala de jantar.
Hunter endireitou-se.
	Eu ajudo.
Kirsten dispensou-o.
	Relaxe. Termino num instante.
Observaram a moa pr a mesa, cada movimento to vigoroso e gil como se tivesse passado o dia descansando em casa. Raven, por sua vez, sentia-se rgida e dolorida aps horas esquiando. Comparada a Kirsten, quase uma dcada mais nova, parecia uma velha.
Hunter interrompeu seus pensamentos:
	Mas, diga-me, por que defende a hipnoterapia?  Com expresso interrogativa, completou:  Foi assim que descreveu na sexta-feira.
Raven viu algo no olhar de Hunter que no identificara em Brent quando ele lhe fez a mesma pergunta. Hunter no estava s jogando conversa fora; estava mesmo interessado.
Ela deu de ombros.
	Gosto de ajudar as pessoas.  simples assim. No que todos os casos sejam graves. Algumas pessoas s querem se concentrar melhor nos esportes ou melhorar os hbitos de estudo, esse tipo de coisa. Mas a maioria me procura com problemas que afetam gravemente sua sade, sua qualidade de vida. Na maioria dos casos, esto cansados dos remdios convencionais.
	Voc pega pacientes que simplesmente no tm cura?
	Na verdade, no. Trato de pessoas nervosas, que receiam a hipnose, que  um tipo de estado alterado estranho. Elas temem que o hipnotizador as force a fazer coisas que no querem, ou algo assim. Primeiro, tenho que ganhar sua confiana, deix-las relaxadas o bastante para que baixem a guarda. A hipnose  isso, um profundo estado de relaxamento no qual voc  suscetvel  sugesto.
Hunter parecia ainda mais interessado.
	Aposto que voc  boa nisso... deixar as pessoas  vontade.
Voc  gentil. No a imagino querendo magoar outra pessoa.
Havia uma intimidade na voz de Hunter que a assustava e enervava. Trmula, pousou o clice na mesinha.
	Acho que vou ver se Brent precisa de ajuda.
Foi para a cozinha, onde conseguiu ser aceita para fatiar o po italiano e preparar a salada Csar. A refeio atendeu s expectativas. A tal jambalaya era uma mistura de arroz, legumes, camares e linguia condimentada. Conversaram animadamente. Embora fosse prematuro, Raven imaginou-se casada com Brent, partilhando aquela casa, a cozinha, a cama. O irmo.
Hunter seria seu irmo por extenso... seu cunhado. Parte de sua famlia. Deu uma olhada nele e percebeu que ele a fitava.
Oh, que irmo!
Podemos dar uma carona a Raven  sugeriu Hunter, fechando o zper da parka preta.
Raven sentou-se perto de Brent no sof e ele pousou o brao em seus ombros. Os pratinhos de sobremesa e as xcaras de caf lotavam a mesinha.
	De qualquer forma, obrigado  declarou Brent, aps recusar.  Eu mesmo vou lev-la para casa mais tarde.
Raven olhou para o relgio, surpresa em ver que j passava da uma da madrugada.
Tenho um paciente amanh bem cedo. Preciso mesmo ir.
Brent ficou decepcionado, mas contornou a situao.
	Bem, nesse caso, vou deixar Hunter lhe dar uma carona.  Levantou-se e estendeu a mo. Vamos procurar sua jaqueta...
Como se precisassem procurar. A pea estava l, na cama de Brent, onde ele a largara ao chegarem. Raven no se surpreendeu quando ele fechou a porta do quarto. No tinham tido um momento a ss durante o dia todo. Ele sorria sincero e afetuoso ao aproximar-se.
	Espero que tenha se divertido tanto quanto eu.
	Eu me diverti, Brent. Obrigada. Embora...  Ela girou os ombros, gemendo e rindo ao mesmo tempo.  Embora talvez no venha a lhe agradecer amanh. Acho que vou tomar um banho quente quando chegar em casa.
Ele a segurou pelos ombros, massageou-os e sorriu malicioso.
	Tenho banheira aqui...
Raven sabia que ele oferecia mais do que a banheira e que, se no fosse para o carro de Hunter naquele instante, s voltaria para casa no dia seguinte.
No podia dizer que no estava tentada. Apesar da deciso de manter a nova relao em ritmo lento, no podia negar que Brent era bonito, inteligente, atencioso e obviamente estava interessado nela em termos fsicos. Ela no fazia sexo havia algum tempo. Claro, nunca fora para a cama com ningum logo no incio do relacionamento, mas esse no era o motivo mais forte para se despedir de Brent naquele momento. O principal fator aguardava-a na sala, tateando a chave do carro.
O assunto todo era confuso. Raven sentia que, se agisse por impulso naquele momento, iria se arrepender amargamente depois.
Brent inclinou-se para a frente e beijou-a.
	Uma banheira muito confortvel  murmurou ele, e beijou-a novamente, mais decidido.  Cabem dois.
A tcnica dele no era ruim. Direto sem ser ofensivo. Ela sorriu para suavizar o golpe.
	Mesmo que eu no tivesse um paciente logo cedo, no poderia... no ficaria.
Ele sorriu, resignado.
	Respeito sua deciso.
Quando ela voltou  sala, pouco depois, Hunter olhou para a jaqueta que ela trazia. Talvez esperasse que ela declinasse a oferta de carona, aps ficar dois minutos a ss com o irmo.
Kirsten deixou Raven ir no banco da frente, j que ela desceria primeiro. No havia trnsito, as estradas estavam livres e conversaram sobre o ltimo escndalo poltico por vinte minutos at chegarem ao apartamento de Kirsten.
Hunter retirou o equipamento de esqui da moa do porta-malas e a acompanhou at a porta. Dispensando-o ali mesmo, Kirsten beijou-o sonoramente, pegou os esquis e a bolsa e mandou-o voltar logo para o carro. Hunter ainda esperou at ver as luzes do terceiro andar se acenderem antes de retomar o volante e pr o carro em movimento.
Ele continuou falando de poltica e Raven ficou contente em ter um assunto neutro em que pensar. Quando chegaram a sua casa, j tinham esgotado os assuntos gerais e comeavam a comentar sobre o tempo.
	 uma casa grande para uma pessoa  disse Hunter, apreciando a construo.  Voc a divide com colegas?
	No, sou s eu.  Raven acompanhou-o at o porta-malas, de onde ele retirou os esquis e a bolsa.  Esta era a casa dos meus pais. Minha irm Lenore e eu crescemos aqui. Meu pai e minha me a venderam para mim... sob condies favorveis, devo dizer... quando se aposentaram e foram para a Flrida, h alguns anos.  um pouco demais para mim, mas tem uma vantagem importante... uma entrada separada para o meu consultrio.  Indicou a porta lateral.
Hunter insistiu em carregar o equipamento at dentro da casa. Raven destrancou a porta e tentou alivi-lo do fardo, mas ele levou tudo ao vestbulo.
	Onde eu deixo?
	Oh, pode deixar a mesmo. Depois eu guardo.
Ele hesitou antes de deixar a bolsa no cho e apoiar os esquis na parede. Raven acendera a luz, e eles ficaram envolvidos num ambiente de claridade e sombras.
	Muito obrigada pela carona, Hunter.
Ele assentiu, tenso.
	Foi um prazer.  Aps um momento constrangedor, despediu-se:  Bem, boa noite.  J ultrapassara o umbral quando se voltou.  Sabe, acho que voc pode me ajudar...
	No qu?
	Ele esfregou o queixo, spero com a barba do dia.
	Quanto mais eu penso, bem, talvez a hipnose seja o que eu preciso.
	Oh. Voc precisa de ajuda em que sentido?
	Tenho medo de altura. Eu fico, sabe, ansioso em lugares altos. Fico em pnico. Voc lida com esse tipo de problema?
	Claro  afirmou Raven.  J tratei de vrias pessoas com acrofobia.
	timo. Isso  timo. Faremos isso, ento. Quando?
	Hum... Terei que verificar minha agenda. Por que no me telefona amanh  tarde... quero dizer, hoje  tarde... e marcamos uma hora?
Hunter riu.
	Farei isso. Qual  o seu telefone?
Raven retirou um carto de visitas da bolsa.
	Acha que pode me encaixar ainda esta semana?  indagou ele.
	Devo ter alguns horrios.
Hunter leu o carto.
	Oua, Raven, voc no vai comentar isso com Brent, vai?
	No, se voc no quiser.
	E s que... bem,  um tanto constrangedor, sabe? Ele nem imagina que eu tenho esse problema. Eu preferiria manter entre ns.
	Fique tranquilo.
	Obrigado.  Com uma ltima saudao, Hunter se foi.

CAPITULO III

	Voce parece um pouco nervoso  constatou Raven.  Isso  perfeitamente normal na primeira vez.
Hunter no estava apreensivo com a perspectiva de ser hipnotizado. Durante parte da semana, aguardara a consulta na quinta-feira s dez da manh pensando s na chance de ver Raven outra vez. Sentia-se excitado e culpado por mentir descaradamente. Seu nico propsito era passar algum tempo sozinho com a namorada do irmo.
Medo de altura. Fora a primeira coisa que lhe viera  cabea.
 Sente-se aqui.  Raven indicou uma poltrona reclinvel de couro marrom em seu consultrio, uma sala com painis de carvalho e decorada com tons terra. Com exceo da poltrona, todos os mveis pareciam antigos. Uma escrivaninha pesada ocupava parte do espao junto a uma parede, ladeada por armrios para livros com portas de vidro.
Raven baixou as cortinas pesadas da janela, bloqueando a claridade acinzentada do cu de inverno. Uma luminria de p com cpula de vidro em tom mbar lanava uma luz difusa pela sala. Os dois ficariam envoltos naquele local acolhedor durante toda a hora seguinte, isolados do resto do mundo. Era fcil perceber como um ambiente intimista como aquele favorecia a revelao dos pensamentos mais profundos de uma pessoa, de seus medos e desejos.
Talvez, refletiu Hunter, enquanto Raven trazia uma cadeira de balano para perto da poltrona reclinvel, no tivesse sido uma grande ideia, afinal. Imaginou se enlouquecera. Raven estava prxima o bastante para que ele sentisse seu perfume refrescante... inocente e sedutor ao mesmo tempo. Ela usava suter de gola olmpica de l macia bege, cinto, saia comprida xadrez e meia bota de camura marrom.
Hunter ajustou a poltrona de modo a ficar na posio mais horizontal possvel e cruzou as mos sobre o estmago. Remexeu-se. Suspirou.
	Pronto. Estou confortvel  anunciou,  Totalmente relaxado.
Ela riu.
	Se acha que sim. No se preocupe. Voc vai ficar relaxado logo. Quer perguntar algo antes de comearmos?
Ligeiramente inclinada para um lado na cadeira de balano, Raven cruzara as pernas e tinha um pequeno bloco de anotaes no colo. A iluminao suave dava brilho a seus cabelos. Estava linda, serena e totalmente crdula. Hunter sentia-se um patife.
	Vou me lembrar do que conversamos?  indagou ele.
	Provavelmente. Como eu disse antes, a hipnose  apenas um estado de relaxamento. Pode ser to leve, como quando se assiste a um filme ou se l um livro... ou to profundo quanto no sono. A maioria das pessoas lembra-se de tudo o que aconteceu, porque geralmente no  to profundo.
Hunter no pretendia deixar o "transe", ou o que fosse, ficar to intenso. No estava ali para tirar uma soneca.
	Est bem...  decidiu.  Vamos l.
	Primeiro, quero que feche os olhos.
	Eu tenho que fechar?
Ela sorriu.
	A chefe aqui sou eu. Feche os olhos.
Ele obedeceu.
	Quero que pense no lugar mais relaxante e calmo em que j esteve. Pode ser qualquer lugar.
	Isso  fcil. A praia. S relaxando, deitado ao sol.  o meu lugar favorito.
	V para l agora, Hunter. Transporte-se para a ltima vez em que esteve na praia. Voc est deitado sobre um cobertor...
	Toalha.
Ele captou o riso na voz dela.
	Uma toalha. O sol brilha no cu e est quente, mas no quente demais. Voc deu um mergulho e sente as gotas salgadas secando na pele...
A voz de Raven era calma, modulada. Hunter poderia ouvi-la por horas.
A toalha  macia e confortvel  prosseguia ela.  A areia debaixo da toalha se amolda a seu corpo. Voc ouve as ondas quebrando na praia, com a regularidade de um relgio.
Para voc, esse som sempre  o mais relaxante do mundo...
Como ela sabia disso? A percepo do sol brilhante lhe atravessava as plpebras. As ondas quebravam ao longe, espumando na areia e retornando em seu ritmo incansvel. Respirou fundo, encheu os pulmes com o cheiro de gua salgada e da essncia de Raven...
	Voc sente o calor do sol na cabea  dizia ela.  Secando os seus cabelos, deixando-o arrepiado e depois relaxado,  medida que a gua evapora levando junto a tenso...
	Hum...  desabafou Hunter, sentindo a tenso se desmanchando na nuca sob o calor do sol de vero.
Hunter continuou o processo de relaxamento fsico, atentando a cada parte de seu corpo, dos msculos faciais at o p. Reduziu-se a uma massa gelatinosa sem forma, deitada e sem ossos sobre a toalha imaginria.
A voz melodiosa de Raven... As palavras dela eram registradas num nvel profundo, como se fossem seus prprios pensamentos. Jamais experimentara tal grau de conectividade com outra pessoa.
	Agora, quero que volte no tempo... a uma poca em que se sentia seguro  sugeriu Raven.  Salvo, seguro e confiante.
A imagem da infncia mais antiga que ele tinha era da famlia sentada  mesa de jantar. A refeio era sagrada, uma pausa no dia atribulado durante a qual todos relaxavam e brincavam.
	Quando se sentir salvo e confiante, incline a cabea.
Hunter assentiu de leve.
	Agora, vou tocar sua mo direita  disse ela, e ele sentiu dedos delicados e frios na costa da mo. Mas o contato foi efmero.  Pense em outra ocasio na qual se sentia da mesma forma  sugeriu, suave.  Salvo, protegido e seguro...
Obediente, Hunter vasculhou a memria e novamente Raven tocou em sua mo direita. Repetiram o processo mais algumas vezes.
	Agora, quero que pense numa experincia ruim que teve com altura. Um incidente que o deixou em pnico, apreensivo.
Ela parecia to sincera, to crente. Hunter sentiu-se imediatamente constrangido com aquele subterfgio. A mente obrigou-o a pensar numa situao na qual sentira-se mal, independente da altura. Lembrou-se da ltima sexta-feira, no clube Bom Humor, quando se sentira atrado pela acompanhante do irmo.
Lealdade familiar, dever e honra eram prioritrios em sua vida e sabia que Brent cultivava os mesmos valores. Foram criados assim. Brent preferiria cortar um brao a dar em cima de uma namorada de Hunter. No que o camarada no tivesse defeitos. Raios, Hunter tambm no era nenhum anjo. Mas s se possua uma famlia.
O que estava fazendo era errado. Prometeu a si mesmo que depois daquele dia, ficaria bem longe de Raven.
	Est sentindo desconforto, Hunter? Desconforto e ansiedade? Mexa a cabea se estiver  instruiu ela.
Ele emitiu um som entrecortado e assentiu. A voz de Raven era comovente e gentil.
	Agora, vou tocar em sua mo esquerda.
Ele sentiu uma leve presso na mo esquerda. Repetiram o exerccio vrias vezes. Raven lhe pedia para recordar algum evento relacionado ao medo de altura e o tocava na mo esquerda. Mas ele s pensava no crpula que era, cobiando a namorada do prprio irmo.
Novamente, ela o instruiu a recordar um fato desagradvel.
	Vou tocar em sua mo esquerda.  S que, dessa vez, ela o surpreendeu tocando na mo direita.
	Voc est sentindo a segurana e o conforto que associou ao toque na mo direita  explicou ela  Ainda que esteja pensando na experincia que lhe causou ansiedade.
Hunter ficou atnito ao perceber que era verdade.
Ela pediu vrias vezes que ele se lembrasse de fatos relacionados ao medo de altura, a cada vez tocando em sua mo direita. Hunter percebeu que quando recebia o estmulo "bom" pensando na cobra venenosa que era, no se sentia to vil, afinal.
E concluiu que gostava de no se sentir uma cobra. No fizera nada to terrvel? Se Brent descobrisse sobre essa pequena artimanha, provavelmente dariam boas risadas.
A ideia despertou-o instantaneamente.
Nunca ririam daquilo.
Piscando, olhou para Raven. Ela inclinou a cabea e sorriu.
	Voc voltou bem rpido.
	Acho que no me acostumei com isso ainda  justificou Hunter.
	Eu disse algo que o perturbou?
	No, eu s...  Diga a ela que no vai mais voltar. Olhou para o relgio de pulso.  Ora, nossa sesso est no fim.
Ela se inclinou e olhou para ele, sria.
	O que fizemos hoje foi s uma tcnica para ajud-lo a superar o seu problema... Podemos explorar outras tcnicas se voc decidir continuar a terapia. Acha que fez progresso?
	Sim.  Eu decidi, Raven. No posso voltar aqui. Tentou verbalizar as palavras enquanto acionava a cadeira para a posio normal. Num segundo, levantou-se e preparou-se para sair.
Raven levantou-se tambm e largou o bloco de notas e a caneta na cadeira.
	Voc j quer marcar outra sesso?
Diga no.
	Claro.
	A mesma hora, na semana que vem?
	Por que no?  Ele tirou a carteira do bolso traseiro, preencheu um cheque relativo aos honorrios e o entregou.
Hunter estava definitivamente louco e comprometeu-se ainda mais:
	A sua primeira sesso de terapia est marcada para a prxima quarta-feira s nove da noite.
Ela parecia deliciosamente confusa.
	O que h na quarta-feira s nove?
	Noite de amadores no Bom Humor.
	Oh, no!
	Oh, sim, Raven. Voc vai superar o seu medo de falar em pblico. Precisa trabalhar nisso, lembra-se? Voc mesma reconheceu.
	No posso. No vou.  Ela cruzou os braos.  E no se discute mais isso.
Hunter riu.
	Raven, no  to aterrorizante.
	Para voc, talvez, Hunter, mas me viu na outra noite, quando me convidou a subir no palco. No v me dizer que no sabe quanto a coisa me perturba.
Ela adotava uma atitude ainda mais teimosa. Ele acertara em cheio.
	Voc ajuda as pessoas a superarem seus medos todo o tempo  observou.  Devia ser capaz de...
	Eu no quero falar sobre isso.
	Raven...  Ele se aproximou. Ela estava linda sob a luz dourada da luminria, suave, vulnervel e beijvel demais para sua tranquilidade. Esforou-se para no toc-la. Quem saberia o que um toque poderia provocar?
	Oua...  Enfiou as mos nos bolsos da cala jeans.  Sei que a ideia a aterroriza, mas  por isso que precisa faz-lo. Tem que provar a si mesma que pode. Tem que ganhar controle sobre esse medo que a mantm longe de apresentaes profissionais e at de pblicos infantis.
	Sei que voc tem boa inteno, mas eu simplesmente no posso.
Raven implorava com o olhar, abraando-se. A simples ideia de subir no palco a enfraquecia. Mesmo assim, Hunter identificava nela uma fora interior que talvez nem ela reconhecesse. Tinha tanto a oferecer... e tanto a ganhar... se conseguisse colocar uma pedra em cima daquele medo sem justificativa!
Ele avanou mais um passo, at ficarem a poucos centmetros um do outro. Fitou-a.
	Eu estarei l  tranqilizou-a.  Estarei l o tempo todo. No vou deixar que nada de ruim lhe acontea, Raven...
Por vrios segundos perigosos, ele fitou os grandes olhos dourados e ambos deixaram-se arrastar a um plano que no admitiam existir. A certeza do desejo rmtuo os envolvia como eletricidade e at o ar pareceu modificar-se.
Raven desviou o olhar primeiro. Hunter recuou.
	Voc s precisa preparar material para trs ou cinco minutos  disse ele.  Eu escalo muitas pessoas na noite de amadores, s vezes at mais de vinte. Voc sobe l, conta algumas piadas e vai estar fora do palco antes que perceba.
Raven emitiu um som desanimado.
	J assisti a quadros de amadores. O pblico  realmente crtico. Quero dizer, voc coloca algum famoso e o camarada pode ler uma lista de compras e vai ficar engraado. Coloque um desconhecido e ser como tubares querendo sangue.
	Oua, no vou mentir para voc. E difcil subir no palco, principalmente das primeiras vezes. Mas no se consegue nada na vida sem arriscar.
Raven estava meio de lado. Hunter inclinou-se para encar-la. Foi recompensado com um olhar mal-humorado.
Eu subo no palco com voc  sugeriu, insistindo.  Embora no ache que voc precise de ajuda. Voc  naturalmente engraada, Raven, tem ritmo. Voc nos divertiu no jantar contando sobre sua amiga Sunny, aquela que vive ligada nos canais de compras.
Ela moveu os lbios, sorrindo relutante.
	A verdade  mais forte do que a fico.
 Isso, trabalhe com fatos da vida cotidiana. Enfeite as suas experincias. Apenas suba no palco e conte a sua histria. Raven emitiu outro som, hesitante.
	Quer saber, voc  naturalmente engraada, pela maneira como conta a histria. No  o que voc diz, mas a eloquncia, o ritmo.  um dom seu.
 Vou pensar no assunto.
	Voc est tentando escapar, mas no vai conseguir. Vou agend-la para a prxima quarta-feira.
	No! Ainda no. D-me um tempo para pensar nisso.
Apesar da declarao, o pnico estampado no rosto indicava que ela transpusera um limite. Raven decidira enfrentar o problema.
Hunter retirou o casaco do antigo mancebo de madeira e o vestiu.
	No vai se arrepender, Raven. Lembre-se, eu estarei l, a seu lado. Se comearem a jogar frutas podres, eu tiro voc do palco.
Ela franziu o cenho.
	 to engraado...
Hunter riu, entusiasmado com a vitria.
	Vai ser bom, voc vai ver. Quando terminar, vai se perguntar por que tinha tanto medo.  Pegou o bloco de notas dela na cadeira de balano e escreveu um nmero de telefone.  Prepare algum material e me telefone para trabalharmos nisso.
A caminho da sada, Hunter beijou-a rapidamente no rosto.
	Tenha pensamentos engraados.
O ar estava to gelado que Raven precisou levar o cachecol ao rosto para aquecer as vias respiratrias. Um protetor de ouvido preto lhe cobria as orelhas. Vestia suter de l pesado sob o casaco longo com capuz, mas o frio se infiltrava cortante como faca.
Mesmo assim, era divertido cavalgar na floresta. Era o terceiro encontro com Brent e comeava a apreciar a preferncia dele por atividades fsicas extenuantes. O quarto encontro j estava marcado para o sbado: patinariam no lago congelado e depois fariam uma refeio na casa dela. No dia seguinte, Brent promoveria uma reunio para assistirem ao jogo de futebol americano pela televiso e ela j prometera levar chili com recheio de carne.
Depois do jogo, Brent ainda pretendia ensin-la a jogar ra-quetebol e, como tinha breve de piloto, lev-la num sobrevoo por Manhattan. O aluguel do avio no era caro, garantiu ele: "um fusca com asas", mas Raven sabia que seria o dia mais cheio de aventuras de sua vida.
Nunca cavalgara antes, embora comeasse a pegar o jeito, acompanhando a marcha alegre do guia  frente e com Brent logo atrs. Nunca jogara raquetebol antes, nem voara num avio particular, tampouco, mas algo lhe dizia que apreciaria essas experincias. Que delcia passar o tempo com um homem cuja imaginao no se limitava a um jantar e um cinema!
	Voc no est acostumada  disse Brent.  Como vo os seus quadris?
Ela sorriu por sobre o ombro.
	 uma pergunta muito pessoal, no acha?
Ele tinha o rosto rosado e os olhos azuis brilhantes devido ao frio. A expresso travessa fazia-o parecer mais jovem, mais at do que o irmo. Era to bonito quanto Hunter, mas de um jeito diferente. Brent tinha feies mais maduras, mantinha os cabelos num bom corte e exibia um guarda-roupa mais clssico. Para aquele programa, vestira jaqueta de couro marrom sobre suter de l marfim e cala jeans preta que parecia nova. As botas marrons pareciam recm-engraxadas.
Cavaleiro experiente, Brent instalva-se na sela confiante e conduzia a montaria com as rdeas frouxas entre os dedos enluvados. O pessoal do estbulo reservara-lhe uma gua acinzentada magnfica, incomparvel ao cavalo baio que ela montava.
	Bem, ficar feliz em saber que, do meu ponto de vista, seus quadris parecem em tima forma.
Ela riu. Brent flertava sem ser inconveniente. Davam-se bem desde o comeo. Talvez Amanda soubesse o que fazia ao promover um encontro entre os dois. E talvez Charli e Sunny tambm soubessem o que faziam ao aprovar a escolha. Raven sabia que Brent provavelmente lhe mostrava seu melhor lado, como faziam as pessoas nos primeiros estgios de um relacionamento, mas achava tambm que ele, se tivesse algum defeito grave, j o teria revelado quela altura.
De volta ao estbulo, Brent galantemente ajudou Raven a saltar. Ela esfregou o nariz aveludado de seu animal, agradecendo sua delicadeza para com uma novata.
Brent envolveu-a com o brao enquanto caminhavam para o carro. Ao lhe abrir a porta, viu as horas no relgio.
	So s quinze para as cinco. D tempo de fazer reserva para as sete e meia.
Haviam planejado tomar banho na casa de Raven antes de seguir para o mais novo restaurante cinco estrelas de Long Island. Brent levara roupas limpas para vestir. J escurecia quando entraram com o carro na garagem. Ela ofereceu o banheiro da sute, enquanto verificava a secretria eletrnica e dava uma olhada na correspondncia.
Vinte minutos depois, Raven estava no consultrio, respondendo a e-mails pelo microcomputador, quando ouviu Brent descer a escada.
	Estou aqui!  avisou.
Logo sentiu um perfume de sabonete e Brent pousou as mos em seus ombros.
	Deve ser aqui que pratica sua arte misteriosa  provocou ele. r O lugar sagrado.
	E aqui. Acabo num minuto.
Brent massageou seus ns de tenso.
	Voc se saiu bem na primeira cavalgada. Est dolorida?
Ela riu.
	Estou, mas no a.
Ele deslizou as mos mais para baixo e retomou a massagem, mas sem tocar nos seios. Raven quase protestou: Tambm no  a, mas Brent parou e se inclinou para a mesa.
	Aquele no  o nmero do telefone de Hunter?  Ele pegou o bloco de notas de Raven e leu os sete dgitos rabiscados com a letra inconfundvel do irmo.  .
Raven sentiu o corao bater nas costelas. Raciocinou rpido. Prometera no contar a Brent sobre a terapia de Hunter. No era a primeira vez que um cliente pedia sigilo, mas nunca a discrio sugerira tanto um segredo ilcito.
	Hunter me convenceu a me apresentar no Bom Humor na quarta-feira. Ele me deu o nmero para combinarmos um ensaio.
Brent largou o bloco na escrivaninha.
	Ele esteve aqui?
	Esteve, quando me deixou no domingo aps o esqui e o jantar. Ele queria ver o meu... lugar sagrado.  Raven riu para descontrair. Por que a situao parecia to trapaceira?
Felizmente, Brent pareceu aceitar as explicaes. Ele se inclinou e seus cabelos midos lhe roaram a orelha.
	Sabe, ainda temos bastante tempo at a hora de sairmos. 	Ele a beijou na testa.
O murmrio ntimo lembrou tanto a voz de Hunter que ela se sobressaltou. Olhando por sobre o ombro, percebeu que Brent estava sem camisa. Por favor, que ele no esteja usando s uma toalha, rogou, e baixou o olhar.
Ele estava de cala preta social. Que alvio.
	Hum, deixe-me apenas enviar isto.  Raven pressionou algumas teclas e o e-mail para o pai em Fort Lauderdale foi para o ciberespao.
Brent girou-lhe a cadeira at se encararem. Apoiando as mos nos braos do mvel, olhou-a de cima com um sorriso sedutor. Nesse momento, Raven percebeu que o relacionamento ultrapassara a situao de flerte... pelo menos para Brent.
Ele a beijou de leve nos lbios.
	Ainda temos muito tempo...  murmurou ele, e beijou-a novamente.
Brent beijava com conhecimento. A sensao era prazerosa, mas Raven achava impossvel relaxar e aproveitar, imaginando at onde ele pretendia ir. No precisou imaginar por muito tempo.
	Venha c.  Ele a fez se levantar e a conduziu at a poltrona reclinvel... bem onde Hunter se acomodara havia dois dias. Brent sentou-se e instalou-a no colo.
Raven viu-se aninhada junto ao trax nu.
	Brent...
Hbil, ele reclinou a poltrona at a posio horizontal. Raven ficou tensa.
	Eu... eu devo estar cheirando a cavalo  lembrou, tentando evitar deitar-se sobre ele.
	Deixe-me ver.  Ele a cheirou junto ao pescoo.  Hum... no se parece com nenhum cavalo que j vi.  Acariciou-lhe as costas, exercendo leve presso, convidando-a a relaxar sobre ele.  Gosto desta cadeira.  Ergueu o sobrolho insinuante.
	Sugere infinitas possibilidades...
	E para meus pacientes de hipnoterapia.  Raven tentou se desvencilhar dele.
	Que apropriado  disse Brent.  Eu j estou sob seu encanto.
	No, quero dizer... no  certo. No me sinto confortvel fazendo isto aqui.
Ele teve um lampejo.
	Ento, vamos subir.  Tocou-a no seio e acariciou.
Raven agarrou-lhe o pulso.
	No.
Brent ficou tenso. Retirou a mo e aprumou a cadeira. Raven levantou-se e recuou um passo, cambaleante.
	Estamos indo rpido demais, Brent.
Ele suspirou, frustrado.
	J  o nosso terceiro encontro.
	E isso  algum nmero mgico?  Raven sorriu sem graa e ficou aliviada quando ele devolveu o sorriso.
	Esperava que fosse.
	Eu no posso... ficar to ntima cedo assim. No  o meu jeito.  Raven desejava que ele sasse da poltrona reclinvel. No conseguia v-lo ali sem pensar em Hunter.
	Posso esperar  concluiu Brent.  Mas preciso saber quando voc acha que ser possvel. Vou ser franco, Raven. Estou levando nosso relacionamento muito a srio. Quero passar para o nvel seguinte... e no estou falando s de sexo. Voc  uma mulher muito especial.
	Gosto muito de voc, Brent. Estou muito contente por Amanda nos ter apresentado. S no estou pronta para mais, no momento.
Ele a avaliou.
	Posso presumir que no h mais ningum?
	Claro que no h mais ningum! Quero dizer, no sou o tipo que sai com mais de um ao mesmo tempo.  Ela sorriu.
 A vida j  bastante complicada.
Surgiram ruguinhas ao redor dos olhos de Brent.
	Parece que me envolvi com uma moa antiquada.
	Digamos que sei o que funciona para mim.
	 mais do que muitas pessoas podem dizer.  Brent levantou-se e a tomou nos braos.  Tudo bem. Vamos devagar. Algumas coisas na vida valem a espera.

CAPITULO IV

Raven olhou ao redor, observando o pblico no Bom Humor. O lugar estava lotado: timo para Hunter, pssimo para ela, que j se imaginava deixando o palco bem rpido. Como pudera aceitar tal convite?
Mas sabia a resposta. No ntimo, via Hunter, conforme ele se apresentara em seu consultrio. Via sinceridade nos olhos, na voz, ao prometer-lhe que no deixaria que nada de mau lhe acontecesse.
Sorriu. Hunter era seu cavaleiro em cavalo branco, pronto para lutar contra os drages.
Os clientes j haviam jantado e agora saboreavam a sobremesa.  direita, Charli sorvia caf expresso e terminava o sorvete de limo. Amanda,  sua esquerda, dispensara a sobremesa e tomava uma xcara de ch de jasmim. Do outro lado da mesa, Sunny tomava a segunda xcara de caf, ao mesmo tempo que atacava uma sobremesa de ma crocante.
Raven mal tocara em sua pizza rstica. Nem adiantava tentar comer estando to nervosa.
	Tirem-me daqui  gemeu pela dcima vez.
Tambm pela dcima vez, Charli pousou a mo sobre a dela, reconfortante.
	Voc vai se sair bem, Raven.
	Precisa de uma bebida  sugeriu Amanda.  Algo para relaxar.
	 a ltima coisa de que preciso. Quero estar no domnio de todas as faculdades quando me humilhar l em cima.
Amanda deu de ombros.
 Como queira. Se fosse eu a subir l, tomaria um gole de usque com um remedinho aqui... Sunny pousou o garfo.
	Grande ajuda, Amanda. Ela j est bastante nervosa.
	No se preocupem  disse Raven.  Nada pode piorar. Como estou?
	Boas novas!  exclamou Amanda.  Voc est engraada.
Charli interveio.
	Amanda, quer parar? Voc est tima, Raven. Fica bem de verde.
	Obrigada.  Raven optara por um suter verde de chenille com saia florida comprida at a canela.  Calculei que, quando desmaiar, no vai aparecer nada estando vestida assim.
	Por favor?  murmurou Sunny, com a boca cheia.  Alguns ainda esto jantando.
	Meninas, quero agradecer a presena de vocs  declarou Raven.  Agora, lembrem-se, riam prolongadamente, com fora e com frequncia.
Hunter veio  mesa.
	Contratando risadas?
Raven ergueu o olhar. Ele estava entre ela e Charli. Pousou a mo quente e pesada em seu ombro, cnscio de quanto o gesto era reconfortante.
	Voc deve ser o irmo de Brent  adivinhou Amanda. 
Fizeram-se as devidas apresentaes.
Hunter apertou a mo de Charli por ltimo e sorriu-lhe.
	Charli  apelido de qu? Charlotte? Charlene?
Mesmo com a fraca iluminao do clube, Raven viu a amiga
enrubescer. Charli Rossi no estava acostumada a receber tanta ateno masculina. Baixinho, ela respondeu:
	arlotta.
	 um belo nome.  Ele reparou em sua xcara vazia.  Algo me diz que voc  a pessoa certa para eu perguntar. Que tal o nosso expresso, arlotta?
Ela sorriu tmida.
	Delicioso.
Amanda olhou para Sunny. Se Raven no as conhecesse to bem, no teria captado a segunda inteno no olhar sutil que trocaram.
No podiam estar pensando a srio! Charli e Hunter?
	Onde est Brent? Pensei que ele estivesse aqui.
	Ele no pde vir  informou Raven.  Parece que vai a um torneio de pquer... j estava marcado h meses.
	Hum  murmurou Hunter.
Raven percebeu que ele desaprovava a atitude do irmo, praticamente abandonando-a no clube, e resistiu ao impulso de defender Brent. Na verdade, tambm no estava satisfeita com a ausncia dele, mas no tinha o direito de protestar. Saam juntos havia menos de dois meses... e no fora ela que desejara manter o relacionamento em baixa rotao?
	Raven, vou deix-la por ltimo. Quando me ouvir apre
sentando Donny Deaver, v para o bastidor  explicou Hunter.
Ela s conseguiu emitir um gemido e um suspiro. Hunter massageou-lhe o ombro, mas no disse nada. O gesto era mais reconfortante do que qualquer palavra. Aps Hunter deix-las, Amanda agarrou Charli.
	Que tal o nosso expresso, Carlotta?  Pronunciou o nome ronronando.
	Oh, parem!  Charli olhou ao redor, irritada.
	Hunter parece um amor  avaliou Sunny, passando o garfo sobre o pratinho de sobremesa. Perguntou a Raven:  Ele  to gentil quanto o irmo?
	Bem... acho que sim. Quero dizer, no conversei muito com ele.
Sunny afagou o brao de Charli. 
	Algo me diz que no teremos que procurar muito quando chegar a sua hora.
	Mantenha tudo em famlia.  Amanda piscou.  Raven com Brent, Charli com Hunter...
	Isso  ridculo!  protestou Raven.
As outras trs a encararam.
	Quero dizer... Hunter s tem vinte e seis anos.
	Uma diferena de quatro anos.  Sunny deu de ombros.  E da?
	Um homem mais jovem  considerou Amanda.  Humm... 
Sunny sorriu afetado para Amanda.
	Houve poca em que voc ficava excitada com homens mais velhos.
	Srio.  Amanda voltou-se para Charli. . Acho que Hunter est interessado. Voc gosta dele?
Antes que Charli respondesse, Raven antecipou-se: 
	No acredito no que estou vendo! Umas poucas palavras amigveis e praticamente j esto casando os dois!
Charli arregalou os olhos para Raven. Amanda e Sunny trocaram outro olhar perspicaz e Raven murchou na cadeira.
	Bem, bem, bem.  Amanda recostou-se novamente, sorrindo marota.
	Estamos reagindo um pouco desproporcionalmente, no acha, Raven?  alfinetou Sunny.
Charli piscou forte para Raven.
	Voc est cada por Hunter?
	Ora! Claro que no! O que h com vocs?
Amanda riu.
	Sim, est.
- Desista, Raven.  Sunny parecia fascinada.  Ns a conhecemos bem demais.
	No  engraado  disse Charli.  Ela devia estar saindo com Brent.
	Estou saindo com Brent! E s com Brent!
Amanda levou a mo ao peito.
	Ah, mas no fundo voc gosta do irmozinho.
Dessa vez Raven olhou ao redor, nervosa.
	No  bem assim. Hunter  atraente... e da? No posso achar algum bonito sem que vocs concluam que estou interessada? E, ainda que ele no fosse to jovem, est alm dos limites porque...
	Porque o qu?  pressionou Amanda.
Porque ele  um paciente meu, pensou Raven, mas no trairia a confiana dele. Envolver-se com um paciente era contra a tica. Raven suspirou.
	Ouam, no podemos parar com isso?
	O que vai fazer com Brent?  indagou Sunny.
Charli endireitou-se.
	Ela vai continuar se encontrando com ele, conforme se comprometeu na formao da Aliana do Matrimnio.
	Isso mesmo  confirmou Raven, sabendo como Charli dava importncia s regras.
	Houve um motivo para estabelecermos a regra dos trs meses  lembrou Charli.  Raven diz que no gosta de Hunter "daquela" forma e para mim  suficiente.  Ergueu a mo quando Amanda quis falar.  No, no estou dizendo isso porque o quero para mim. Ele  gentil, mas o que esto pensando? Que sou to solitria e desesperada a ponto de transformar meia dzia de palavras em declarao de amor?  Estava rubra de indignao.
	Claro que no  recuou Amanda.  No foi o que quis dizer. Acho que estamos nos precipitando.
	De qualquer forma, no  a minha vez  declarou Charli, enquanto a garonete retirava os pratos do jantar.  Vamos nos concentrar em Raven.
Felizmente, o show comeou, encerrando a discusso. Raven seria a ltima, dissera Hunter. Ela imaginou se ele fizera de propsito, lembrando-se como o pblico ficava mais receptivo aps vrias apresentaes. Encontrara-se com Hunter na segunda-feira para ensaiar a apresentao. Ele aprimorara seu texto e dera dicas, depositando grande confiana em seu desempenho.
Hunter voltou ao palco e disparou algumas tiradas para agitar o pblico. O primeiro comediante amador subiu ao palco. Raven notou pouca coisa alm da voz aguda e irritante do homem e o chapu de feltro que lhe escondia os olhos. Comeou a sentir pnico. Os sintomas familiares no tardaram: respirao ofegante, mos suadas, boca seca que -permanecia assim no importava quanta gua tomasse.
Quadro aps quadro, os amadores permaneciam no palco por at cinco minutos. To breve quanto qualquer tomada, mas Raven no tinha dvida de que, pra quem estava no palco devia parecer uma eternidade. Concentrou-se em regularizar a respirao.
	Raven, v l!  exclamou Charli.  Ele j chamou o tal Donny.
Charli e Amanda lhe deram tapinhas nas costas. Levantou-se rgida e rumou ao bastidor por entre as mesas. Brincara sobre desmaiar de nervosismo, mas a possibilidade agora lhe parecia real.
Raven encontrou o corredor e a saleta de espera ao lado do palco. Um rapaz robusto de barba espessa e comprida aguardava a vez. Ela sorriu sem jeito e ele ergueu um canto dos lbios, quase desdenhoso. Do palco, Donny Deaver despejava suas tiradas para a plateia silenciosa.
Raven afligiu-se, observando Donny suar sob os holofotes, gaguejando enquanto emitia as frases ensaiadas ao extremo. O pblico iniciava conversas paralelas, ignorando a apresentao.
Raven sentia as pernas como borracha. Sentou-se numa cadeira de metal dobrvel que estava entre caixas de cerveja e um balde de limpeza.
Voc consegue, convenceu-se, rezando para que, uma vez no palco, sua memria no a trasse e se lembrasse da sequncia ensaiada.
Ajudava as pessoas a superar seus medos o tempo todo, conforme observara Hunter. Se no conseguia controlar a prpria ansiedade, era uma fraude.
Raven fechou os olhos. Respirou fundo e devagar, bloqueando a voz de Donny e a murmrio impaciente da plateia. Respirou mais uma vez, sentindo o peso no peito diminuir. Manteve os olhos fechados e as mos no colo.
Raven transportou-se para seu prprio lugar de relaxamento, o lugar que sempre lhe trazia boas sensaes. Silenciosamente, transformou cada parte do corpo em gelia e desejou que o corao voltasse a bater tranquilamente. Concentrou-se em aumentar o fluxo de sangue nas extremidades e sentiu os dedos se aquecerem um pouco.
Respirou fundo mais uma vez, e outra. Quando se sentiu mais calma e controlada, apesar das circunstncias, abriu os olhos e viu Hunter.
Ele estava ajoelhado diante dela, os braos apoiados nos joelhos. Sorria gentil, confiante e algo mais, que ela preferia no analisai naquele momento.
	Onde voc estava?  indagou ele.
Apesar de tudo, ela retribuiu o sorriso.
	Onde mais? Na praia.
O mesmo lugar que Hunter escolhera durante sua sesso de hipnose.
Donny deu lugar ao rapaz de barba, cujo estilo beligerante de fazer graa no agradava  plateia. Seu quadro de "humor" baseava-se na descrio de cada investida que dera nas mulheres e tinha mais a ver com dio do que com inteligncia.
Raven sentiu o medo voltar.
	Hunter... acho que no posso fazer a apresentao.
Fitando-a terno, ele lhe tomou as mos, acariciando-as com os polegares. O toque era seco e quente.
	Raven, pergunte a si mesma: o que pode acontecer de pior?  Ele concluiu que ela pensava numa resposta engraada, pois acrescentou:  Seriamente.
Ela respirou fundo.
	Seriamente? Eu faria papel de idiota.
	Voc no conhece aquelas pessoas l fora, exceto suas amigas, e elas se importam com voc, elas a amam. Quem se importa com o que os outros pensam?
E onde Hunter ficava nisso? Ele era um "dos outros", ou se via como um dos amigos chegados, algum que se importava, que...
Raven barrou aquela linha de raciocnio.
	O que voc diz  racional, mas no h nada de racional na minha lalofobia.  algo em nvel interno.
	Oua. Quando estiver l, finja que est conversando com Amanda, Charli e Sunny. S para elas.
	Vou tentar  aceitou Raven, mesmo duvidando de que fosse dar certo.  Sabe, se no fosse voc me incentivando, conversando comigo assim e tudo, eu no teria coragem de ir adiante com isso.
	Pensei que voc fosse dizer que, no fosse por mim, no estaria sofrendo assim.
Ela riu, nervosa.
	Isso, tambm.
Ele lhe acariciou as mos. Ela fitou aqueles olhos extraordinrios e sentiu a fora invisvel envolvendo-os. No palco, a plateia pedia o fim da apresentao do homem de barba.
Ela choramingou.
	Por favor, diga que eu no sou a prxima.
Hunter levantou-se puxando-a pelas mos. Devia sentir quanto ela tremia.
	Voc  a prxima.
Ela desvencilhou as mos.
	Hunter, oua! Eles esto querendo sangue l!
	No se preocupe, no vou permitir que sejam rudes.  Com isso, ele subiu ao palco e habilmente livrou o comediante amador da situao embaraosa. O homem passou por Raven murmurando algo que ela no conseguiu entender.
	O ltimo quadro da noite  com Raven Muldoon!  anunciou Hunter.   a primeira vez que Raven pisa no palco portanto, vamos dar-lhe as boas-vindas!  Bateu palmas, encorajando a plateia a fazer o mesmo.
Raven ouviu uma onda de aplausos. As pernas recusavam-se a se mover. Fechou os olhos e sentiu a garganta bloqueada de medo.
Recordou as palavras de Hunter: Voc no conhece aquelas pessoas l fora.
Raven abriu os olhos. Viu Hunter piscando-lhe do palco, encorajador. Ele tinha razo. Quem se importava com o que aquelas pessoas achavam dela? Tinha que fazer aquilo, ao menos para provar a si mesma que podia, para impor algum controle sobre aquele medo idiota e debilitante.
Forou-se a dar um passo atrs do outro e conseguiu chegar ao palco de madeira. As luzes cegaram-na; a plateia era um borro. Hunter colocou o microfone em sua mo trmula, apertou-lhe o ombro amigavelmente e desapareceu.
Raven encarou a plateia sem rosto, a mente uma folha em branco. Desesperada, buscou algum pensamento coerente e reencontrou as palavras de Hunter: Finja que est conversando com Amanda, Charli e Sunny. S para elas.
Mentalmente, localizou a mesa, sabendo mais ou menos onde ficava, embora no conseguisse discernir nada. Imaginou-se conversando com as amigas, partilhando observaes sobre a vida, o amor e os homens.
Ouviu-se dizendo:
	O quadro anterior me lembrou de meu primeiro encontro s cegas.
De onde viera aquilo? No era o que deveria dizer! Praticara a linha de abertura inmeras vezes at imprimi-la no crebro... um comentrio sobre fazer trinta anos solteira; porm, quando abrira a boca, sara algo diferente.
As frases foram recebidas com algumas risadas... mais uma prova de quanto detestaram o ltimo quadro e de quanto gostavam dela, sabia Raven. Enquanto isso, preparou uma emenda para as linhas ensaiadas.
O fato era que realmente sara com um homem que lembrava Donny. Assim como muitas mulheres na plateia, desconfiava. O que a levou a acrescentar:
	Caras como aquele entram na rotina.  como raspar as pernas.
A plateia riu, com incentivos femininos predominando. Raven afrouxou um pouco o toque no microfone e sentiu-se relaxar uma frao.
	O nome do meu encontro s cegas era Jerome. Jerome era to... bronco...  Fez uma pausa de efeito. Como a plateia no reagia da mesma forma que Charli, Sunny e Amanda sempre faziam, repetiu com pacincia exagerada e gestos amplos:
 Jerome era to... bronco...
O pblico captou a ideia.
	Quo bronco?indagaram, mais ou menos ao mesmo tempo.
	Jerome era to bronco que pensava que carpe diem significava "peixe do dia".
A casa sacudiu-se com risadas e gemidos, indicando que a graa atingira o alvo. Mesmo os menos letrados da plateia sabiam que a expresso latina no tinha nada a ver com peixe.
Naquele instante, Raven percebeu que Hunter tinha razo. No se tratava do que ela dizia, mas de como dizia. O ritmo, as pausas, a inflexo... tudo lhe vinha naturalmente.
Lembrou-se de um detalhe do encontro s cegas.
	A primeira coisa que saiu da boca de Jerome foi: "Espero que tenha trocado para o nibus".
Continuou procurando fatos engraados na lembrana, colando eventos e acidentes de sua longa histria de encontros no monlogo sobre Jerome. O material acabou aglutinando-se com seu tema inicial: "trinta anos e sozinha".
Finalmente, exps o drama de, aos trinta anos, tornar-se a solteirona oficial da famlia.
	Estou virando especialista  informou, orgulhosa.  Outro dia ofereci a meu sobrinho um pedao de doce que tirei do fundo da bolsa.
Ainda estava trmula, as palmas suavam, o corao batia como um tambor, mas estava conseguindo! Abria a boca e as palavras saam... palavras de verdade, que faziam sentido e, principalmente, faziam a plateia rir e s vezes bater palmas.
Raven surpreendeu-se ao ver a luz verde no fundo do salo ficar amarela... seu aviso de um minuto. J falava havia quatro minutos!
Raven encerrou o tema rapidamente e a plateia aplaudiu entusiasmada. Hunter materializou-se a seu lado e indagcu  plateia:
	Queremos que Raven volte?  Recebeu uma entusiasmada resposta positiva coletiva.
Raven jogou um beijo para o pblico e saiu do palco para a saleta no bastidor. De olhos fechados, apoiou-se na parede, respirando fundo, tonta de alvio.
Eu consegui! Eu consegui!
Ela ouviu vagamente Hunter ler as atraes programadas para aquele fim de semana e desejar boa-noite  plateia.
Eu consegui! Eu consegui! Eu...
Abriu os olhos quando sentiu um beijo firme e rpido na boca.
O olhar de Hunter brilhava de animao e orgulho.
	Voc conseguiu!  E beijou-a novamente, tomado pela excitao do momento. Seus risos se misturaram e ento cessaram, quando seus lbios se juntaram mais uma vez.
Raven tinha vaga noo de ser pressionada contra a parede.
Erguendo as mos, enlaou Hunter ao pescoo e o puxou para mais perto. Estava confusa, resultado da montanha-russa emocional que experimentara. Naquele instante, no pensava, no podia pensar. S podia sentir, e o que sentia era doce e certo.
Hunter apertou-a mais, reduzindo-a a um recheio entre a parede fria e seu corpo quente. Segurando-a pela nuca, intensificou o beijo, como se temesse perder o encantamento e as consequncias daquele seu momento de libertao.
As consequncias se manifestaram assim que puseram fim ao beijo. Raven tocou nos lbios, tenros e intumescidos. Juntou coragem e encarou Hunter. Desejou no ter feito isso. Ele parecia transtornado.
Recuando, ele meneou a cabea, como se quisesse apagar o que acabara de acontecer.
	Raven, eu...
	No.  Ela no suportaria ouvir suas desculpas pelo beijo impensado.
Ele se voltou e passou a mo pelos cabelos.
	No planejei nada disso. Nunca...  Praguejando, chutou o balde contra uma pilha de cartazes. Apoiou as mos na parede oposta, de cabea baixa. Transtornado, afirmou:  Eu nunca trairia meu irmo.
	Eu sei disso.  A voz de Raven saiu trmula. Ela se abraou.  Nem eu. O que aconteceu aqui... no foi culpa de ningum. Foi a excitao, o alvio, foi algo que... nos dominou. 
 Ofegante, contou a mentira que Hunter precisava ouvir:  No significou nada.
Devagar, ele se endireitou, voltou-se e encarou-a, como se buscasse confirmao da sinceridade. Aps alguns segundos, ela desviou o olhar.
	Vamos esquecer que isso aconteceu - decretou ele. Quando ela no se manifestou, acrescentou:  Consegue?
Raven assentiu e engoliu em seco.
	Sim. Claro.
Hunter ainda deu um passo inseguro em sua direo.
	Raven...
Ela ergueu o olhar e forou um sorriso.
	Oua, no se preocupe com isso  murmurou.  No  como se tivssemos arrancado as roupas. Algo escapou um pouco ao controle, ns nos sentimos mal com isso e no vai se repetir. Ponto final.

CAPITULO V

Hunter sorveu um gole de usque e observou Kirsten se despir. Confortavelmente instalado numa das poltronas que os pais dela doaram quando a filha fora morar sozinha, saboreava uma bisteca de porco com pur de batata. Seu copo era um brinde de uma rede de lanchonetes com a estampa de um personagem do ltimo desenho animado nos cinemas.
	Estou pensando em fazer um mestrado em administrao  comentou Kirsten, tirando a presilha dos cabelos, os quais agitou a fim de soltar os cachos castanhos.
	Para que fazer mestrado?  questionou Hunter, vendo- despir o suter multicolorido. Por baixo, usava s uma camiseta justa. Os seios delicados e firmes projetavam-se contra a malha rosa canelada. J sabia como aqueles seios eram firmes e vidos.
	Sem um ttulo, estou fadada a estacionar na carreira  explicou ela, abrindo o zper da cala jeans. Kirsten era assistente administrativa do diretor de vendas de uma grande empresa de artigos esportivos.  Todos a meu redor esto sendo promovidos.
Hunter viu-a livrar-se da cala, expondo as pernas atlticas. A calcinha tipo biquini rosa combinava com a camiseta, mas contrastavam com as meias cor de laranja nos ps.
	Voc est com frio  anunciou ele.  Pergunte-me como eu sei.
Kirsten olhou para os seios.
	Como sabe se eu no estou prontinha para voc?
	No momento, voc est mais interessada no mestrado do que no meu curso.  Ele acabou o usque e largou o copo na mesinha, sobre uma revista de ginstica.  Venha c.
Ela deu uma corrida e atirou-se no colo dele, ajeitando-se de modo a ficar montada. s vezes Hunter sentia-se velho e cansado diante da energia aparentemente inesgotvel de Kirsten. Ela comeou a assedi-lo com beijos.
	J faz um tempo...  murmurou, insinuante.  Voc trabalha demais. Estou surpresa por deixar Matt substitu-lo esta noite.
	No se monta um negcio tratando-o como se fosse um emprego das nove s cinco.
	 por isso que jamais terei meu prprio negcio.  Ela comeou a desabotoar a camisa dele.  Prefiro trabalhar para algum e receber meu salrio de duas em duas semanas. O que  isso? Est sem camiseta? Hum...  Ela passou o dedo pelo trax peludo e ento inclinou-se para lamber o ombro...
um dos seus "ativadores" mais notrios.
Hunter devia estar completamente relaxado quela altura, aps o jantar pesado e a dose dupla de usque. Infelizmente, a nica parte relaxada era aquela que no deveria estar, com uma ninfeta de vinte e um anos esparramada sobre seu corpo.
Est bem, ninfeta no -a justo, ele sabia. Kirsten no era menor de idade, no importava quanto parecesse jovem. Lembrou-se do comentrio de Raven sobre a moa ter falsificado o documento para degustar os vinhos.
Kirsten ergueu o rosto.
	Qual  a graa?
	Nada. No pare.  Ele a puxou contra si.  Gosto do que estava fazendo...
	? Voc parecia... em outro lugar.
	Estou um pouco tenso, s isso. V em frente.  Era mentira, mas o que ele devia lhe dizer? Eu quase seduzi a namorada do meu irmo. Faltou pouco.
No  como se tivssemos arrancado as roupas, dissera Raven. No podia falar por ela, mas ele chegara bem perto disso. Segundo ela, deixara-se levar pela excitao do momento e a situao escapara ao controle. No significou nada. Palavras dela.
Se Raven se sentia de fato assim... e ele no estava totalmente convencido disso... ento ficava contente por ela. Raven no fizera nada errado, afinal. Ele iniciara o beijo. Ele ultrapassara o limite e transformara uma manifestao de congratulao num... torneio de hquei de amdalas.
A imagem de um torneio provocou outra lembrana perturbadora. Que negcio era aquele de Brent perder a estreia da namorada no palco para jogar cartas? No estava a par de cada detalhe da vida social do irmo, mas era a primeira vez que ouvia falar de torneio de pquer. Raven precisara de apoio, incentivo, um aperto de mo. Se ela fosse sua namorada, nada o faria abandon-la num momento como aquele.
Hunter a encorajara a continuar atuando no Bom Humor, e ela concordara. No dia anterior, Raven pisara no palco pela segunda vez com material novo. Ainda ficara ansiosa, claro, mas teve apenas alguns momentos incertos na apresentao. Tivera um bom desempenho, e sem que ele precisasse ajud-la com deixadas para rplica. Na primeira apresentao, ela ficara por ltimo, quando a plateia j estava aquecida, e ele assegurara que ela se apresentasse depois de um par de perdedores, de modo a parecer fantstica em comparao.
	Bem, no se preocupe  disse Kirsten, acariciando seus  plos do peito.  Quando eu acabar com voc, no estar mais tenso. Eu garanto.
Ele sorriu, maldoso. Sabia o que ela queria.
	Ento, devo me entregar aos seus cuidados, ?
	Para comear.  Ela rodopiou no colo dele. Se esperava torn-lo um "cidado ereto", ficaria decepcionada.
Hunter precisava tomar uma providncia, rpido. Nunca tivera problema em se excitar e, com certeza, no comearia naquele momento!
Fechou os olhos e respirou fundo, enquanto Kirsten lhe acariciava o trax e os ombros com movimentos circulares. Automaticamente, comeou o processo de relaxamento que Raven lhe ensinara, imaginando-se na praia, sentindo a tenso no corpo se esvair.
Seu primeiro impulso depois do beijo ilcito foi cancelar a segunda sesso de hipnoterapia marcada para a manh seguinte. Mas suas boas intenes... sem mencionar o bom senso... sucumbiram ao desejo intenso de passar uma hora roubada com Raven e, no final, manteve a consulta.
Enquanto sentia os msculos relaxando e a respirao diminuindo, Hunter lembrou-se da voz de Raven exatamente como na manh da terceira sesso, baixa e provocante. Lembrou-se de como ela estava extica num vestido comprido solto com estampa indgena em tons terra. O tecido fluido moldava-se a seu corpo de forma perturbadora. Mesmo sentada com decoro na cadeira de balano no consultrio, com o bloco de notas sobre as pernas cruzadas, ele precisara se esforar para comear o processo de relaxamento. Era capaz de contemplar a beleza de Raven o dia todo.
Agora, era Raven que Hunter via em seus pensamentos, deitada numa toalha junto dele, usando um biquini indecente, pedindo-lhe para desamarrar o busti para no ficar com marcas no bronzeado.
Assim que comeou a sentir o efeito, Hunter descartou a imagem de Raven. S faltava isso, aps o beijo roubado no Bom Humor... ter uma ereo durante a sesso de terapia.
Naquele momento, entretanto, permitiu-se continuar a fantasia que reprimira naquela manh. Estava de volta  praia com Raven. As coxas nuas aqueciam seu colo. Ela mantinha a posio de montaria sobre ele e passava bronzeador por seu peito, para cima e para baixo, sem parar. Abandonara a parte de cima do biquini e os seio nus aproximavam-se perigosamente do rosto de Hunter. Agitava os quadris enquanto o massageava.
O sorriso de Raven era encantador.
	Preciso de voc, Hunter  sussurrou ela.  Preciso de voc agora. Faa amor comigo.  Ela se deitou sobre ele, contra a ereo reprimida pela cueca. Ele passou a mo pelas coxas nuas, gemendo com a sensao prazerosa. Ela estava ali e o queria, e ele s tinha que se livrar de algumas peas de roupa...
	Fique tranquilo  ronronou ela.  Eu no tenho nada em mente a no ser o contedo do seu curso.
Ela beijou Hunter, tirando-o de seu transe hipntico. Ele engoliu em seco e ficou confuso, o corao batendo descompassado. Kirsten o beijava. Kirsten oferecia as coxas a seu toque.
	Ei...  reclamou ela.  Voc estava divagando?
Kirsten instalou-se no cho, entre as pernas dele. Quando buscou o zper da cala, Hunter endireitou-se na poltrona e lhe deteve as mos. Ela o encarou.
	O que foi?
Det-la foi uma atitude impulsiva, pensou Hunter. Planejara fazer amor com Kirsten. Fisicamente, precisava dessa liberao de tenso. Ela o despiria e lhe ofereceria seu corpo jovem, ocupando o lugar da mulher que ele no podia ter.
Kirsten j o excitara antes. No era culpa dela que estivesse enfeitiado pela namorada do irmo. Sabia bem que, se fizesse sexo com Kirsten naquele momento, estaria pensando em Ra-ven. No era o pior dos pecados, mas ia contra sua natureza. Por isso, detivera a moa.
Tinha que se controlar.
	Desculpe-me, Kirsten. Acho melhor eu ir embora.
Ela o fitou com olhos arregalados. Ento, levantou-se e pegou a cala jeans.
Hunter se ps de p.
	No  voc. Ora, sei que isso no soa bem...  calou-se e gemeu.  Mas  verdade.
Kirsten no era burra.
	Bastava dizer que conheceu outra pessoa, Hunter.  Vestiu a cala e fechou o zper.
	No  bem assim...
Ela lhe lanou um olhar fulminante. No tinham um relacionamento exclusivo... eram livres para se encontrar com outras pessoas, e assim faziam.
	Ento, se no h ningum especial, por que o gelo?  Kirsten j vestia o suter.  Voc no tem nada...
	No! No  nada disso.  Hunter fazia exames de sangue regularmente, sempre dava negativo, e sempre usava preservativos para se garantir. Suspirou.  Est bem. H algum. Mas ... complicado.
	Ela  casada?
	Mais ou menos. Eu no achava que isso afetaria o que ns temos.
Kirsten pegou a jaqueta de Hunter no armrio e segurou a porta aberta.
	Avise quando superar a sra. Indisponvel.
Brent atendeu  porta ao terceiro toque de campainha, usando um robe branco. Tinha os cabelos desgrenhados e bocejava.
	Oi, mano. Que horas so?
	Quase dez e meia. Acordei voc?  Hunter recolhera o jornal de domingo d Brent no umbral e, ao coloc-lo na mesinha da sala, viu duas taas de vinho vazias. Abriu o zper da parka e instalou-se no sof.  Costuma pular da cama cedo, mesmo aos domingos.
	Shh!  Brent foi at a porta do quarto e a fechou.  Tenho companhia.
Hunter sentiu um aperto no corao. No devia estar surpreso. Brent e Raven estavam juntos havia mais de trs semanas. O relacionamento tornava-se srio. Raios, pelo que sabia, podiam estar dormindo juntos j desde o primeiro encontro.
Pensara em levar o irmo a uma lanchonete local, para um brunch, o caf da manh especial das manhs de domingo, mas agora s queria sair dali. A perspectiva de conversar amenidades com uma Raven sonolenta, os trs debruados sobre ovos Benedict, tendo ela passado a noite com seu irmo, era mais do que podia aguentar. V-los juntos na reunio de domingo de Brent, quando assistiram a um jogo de futebol americano importante, j fora bastante estressante. Vira-os abraados, brincando um com o outro e, sob todos os aspectos, pareciam formar um casal.
	Bem, no quero me intrometer  declarou Hunter, levantando-se.  Se soubesse que no estava sozinho...
	Voc no est se intrometendo.  Brent baixou a voz ainda mais.  A verdade  que estou contente por voc ter vindo. Vai ser mais fcil dispens-la.
	O qu?
	Voc sabe como ...  Brent folheava o jornal rapidamente.  As vezes elas no percebem. A manh seguinte...  como se elas quisessem se prolongar. Tenho outras coisas para fazer hoje. Ora, veja isso.  Atentou  seo de turismo.  Uma matria sobre cruzeiros.
	Voc est tentando se livrar dela?
	Shh! Fale baixo.
Uma voz feminina grogue ecoou:
	Breeeent?
A moa bronzeada surgiu  porta do quarto, s de camiseta branca masculina, que mal lhe cobria as coxas. Tinha olhos exticos, amendoados, e cabelos pretos espessos que iam at os quadris. Sorriu para Hunter.
	Oi. Sou Marina.
Boquiaberto, Hunter deixou o irmo apresent-lo.
	Vou tomar um banho  informou ela.  Voc vai estar aqui quando eu voltar?  indagou a Hunter.
	... acho que no.
	Bem, foi um prazer conhec-lo.  Com um aceno, fechou a porta do quarto.
Hunter fitou o irmo. Brent riu.
	Ela  modelo de maios. Eu a conheci no clube.
	O que est fazendo, Brent?
	O que quer dizer?  Brent foi para a cozinha.
Hunter o acompanhou.
	E Raven?
	O que tem ela?
	Pensei que o relacionamento com ela fosse srio.
	 srio.  Brent colocou gua no recipiente prprio da cafeteira eltrica.  Eu a levei para dar um passeio de avio ontem  tarde. Ns nos divertimos muito. Isso no tem nada a ver com Raven.
	De algum modo, acho que ela no pensaria da mesma forma.
	Por que est to irritado? No sou nenhum santo, nem voc.
	Raven acredita que vocs dois tm um relacionamento de verdade.
	E temos. Acha que sinto o mesmo por aquela garota... e Raven?  Brent indicou o quarto.  Marina  s divertimento. Provavelmente s a verei uma ou duas vezes, no mximo.
	E Raven? Ela tambm sai com outros rapazes?
Hunter irritou-se com a expresso de pacincia exagerada de Brent, que rebateu:
	O que voc acha?
	Acho que, se voc fosse to srio em relao a ela quanto diz, no estaria saindo com outra mulher.
Raven dissera que nunca trara Brent e Hunter acreditava nisso.
Brent colocou o p de caf na mquina.
	Quer parar de me passar sermo? Quem  voc para falar?
	Pelo menos, nunca enganei ningum. Se tivesse um relacionamento especial com uma mulher, no a trairia.
Brent recostou-se no balco e cruzou os braos.
	Supondo que estivesse no estgio avanado desse relacionamento especial.
	O que quer dizer?
	Quero dizer que Raven no est pronta para dormir comigo.
Pediu para diminuir o ritmo e eu concordei. Claro... quantas vezes voc conheceu uma garota com valores antiquados? Estou achando que ela  a mulher certa. A futura sra. Brent Radley.
Hunter sentiu alvio por Raven no ter-se entregado ainda ao irmo, e raiva pela falta de moral deste. Sempre idolatrara Brent e, quando ambos ficaram adultos, passara a sentir admirao e camaradagem. Naquele instante, entretanto, Hunter no via o que admirar.
Pelo menos, agora sabia o que Brent andara fazendo nas duas ltimas quartas-feiras, enquanto Raven corajosamente enfrentava sua fobia no Bom Humor. Sem dvida, Brent aproveitara as oportunidades para se esbaldar com outras mulheres.
Sabia tambm que Raven se sentira culpada por ter respondido ao seu beijo. Quase desejava que ela descobrisse o que Brent estava aprontando... exceto que ela se magoaria. Por isso, e pela bendita lealdade familiar, iria se calar.
	Vocs dois s esto juntos h trs semanas. No podia esperar, tambm?
	No h como saber por quanto tempo. Sexo  algo importante para Raven. Eu a respeito demais para pression-la.
	Mas no a respeita o bastante para esperar com ela.
	Entendi  disparou Brent, desencostando-se do balco para pegar canecas de caf.  Voc virou santinho. No estou magoando Raven. O fato de eu obter sexo em outro lugar s pode ser bom para o nosso relacionamento. Como uma vlvula de escape. Fica mais fcil recuar e dar o tempo de que ela precisa.
	Oua o que est dizendo. Diga-me se no est racionalizando um comportamento duvidoso.
Brent respondeu com um palavro. Hunter aproximou-se.
	 isso o que vai dizer a si mesmo se se casarem? Quando a lua-de-mel acabar e voc pular a cerca? Que isso  bom para o casamento, que voc est fazendo um tipo de favor a sua esposa...
	Basta!  Brent pousou a caneca no balco com fora.
 O que h com voc? Por que no deixa esse assunto?
Hunter sustentou o olhar sem se intimidar... at algo surgir no olhar de Brent. Ento, teve que se controlar para no recuar. Tentou adotar uma expresso neutra, mas nunca fora capaz de enganar o irmo.
Uma veia saltou na testa de Brent. Quando ele se pronunciou, finalmente, a voz saiu perigosamente contida:
	Tem algo a me dizer, maninho?
Hunter acabou desviando o rosto.
Brent o fitava, impassvel.
	Responda, raios. Se no responder, vou descobrir por Raven...
	No. No a envolva nisso.
	Voc  meu irmo  rosnou Brent.  Confiei em voc.
	Oua, no aconteceu nada, Brent. Eu juro.
	O que  nada?
Hunter suspirou.
	Est bem. Se eu a tivesse conhecido antes... Mas no conheci. S isso. Nada de grave.
	, nada de grave  desdenhou Brent.  No sabia que voc tinha um fraco por mulheres mais velhas. Ela sabe o que voc sente?
	No, nem vai saber.
Rubro, Brent controlava-se com visvel esforo.
	Voc no vai ficar mais sozinho com ela, entendeu?  Apertou um dedo no peito do irmo.  Diga a ela que no a quer mais se apresentando no Bom Humor.
	O qu?
	Voc me ouviu.
	Brent, oua, isso fez muito bem a ela, subir ao palco, falar diante...
	Fez bem a voc tambm?  desdenhou Brent.
	O que voc acha que poderia acontecer no clube?  Hunter assumiu sua expresso mais sincera, embora soubesse o que poderia acontecer no clube.  Mesmo que eu me insinuasse a Raven... o que no farei... o lugar fica lotado s quartas-feiras. Tenho que administrar o restaurante e ainda apresentar as atraes do palco!
	Esquea.  Brent encerrou o assunto.  Se no for comigo, ela no ir mais l.
Hunter imaginou como Brent reagiria se soubesse sobre as sesses de hipnoterapia, sobre o plano especial que ele e Raven tinham para a quinta-feira. Sentiu um aperto no peito. Nunca se confrontara com Brent num assunto to grave e tudo o que queria naquele momento era ir embora e esquecer-se do que acontecera.
Mas acontecera e, no fundo, sabia que o relacionamento com o irmo jamais seria o mesmo.
Hunter tentou racionalizar.
	No castigue Raven por minha causa. Ela precia subir ao palco. Melhora a confiana dela, e ela est adorando.
	Isso no  negocivel. Ela est fora, de agora em diante.
	Ento, voc ter que lhe dizer isso. Mas no se surpreenda se ela o mandar para aquele lugar. Raven no  o tipo de mulher a quem se pode dar ordens. Principalmente quando a ordem no faz nenhum sentido.
	Diga a ela que voc tem que dar oportunidade a outra pessoa  insistiu Brent. Friamente, acrescentou:  Voc me deve isso.
Hunter fitou o irmo na esperana de ter ouvido mal. Nunca imaginou que Brent seria capaz de tal atitude.
	Isso no tem a ver com o que lhe devo.
	Talvez eu no veja assim.
Hunter respirou fundo.
	Oua. Isso  estupidez. Eu lhe disse, no  nada. Diga-me que voc nunca pensou na mulher de um amigo desse jeito. No significa que v se atirar de cabea.
Brent franziu o cenho.
	A famlia  diferente.
	Est bem, ento voc tem a minha permisso para ter pensamentos lascivos em relao a Lauren, Kirsten e Rachel e...
	Cale-se  resmungou Brent, o tom mais cansado do que irritado. Passou a mo pelo maxilar.  No sei o que fazer a respeito.
	Voc no tem que fazer nada a respeito  disse Hunter.
 No d demasiada importncia. No estou obcecado. No estou apaixonado. E na semana que vem provavelmente vou indagar: "Raven, quem?".
O barulho do chuveiro cessou. Pouco depois, Marina saiu do quarto, tagarela:
	O que vamos fazer agora? Conheo uma lanchonete naturalista que serve suco de cereais e hambrgueres vegetarianos.  tarde, pensei em irmos ao museu de miniaturas em Roslyn. J lhe contei que coleciono mveis em miniatura?
Brent apoiou-se na geladeira, parecendo Ssifo, personagem da mitologia, olhando a grande pedra no sop da montanha a qual era condenado a rolar para o alto indefinidamente.
	Suco de cereais.  Hunter tomou o rumo da sala.  E isso o que modelos de maios tomam?
	Voc no vai sair assim!  Brent agarrou Hunter pela manga da camisa.  Ajude-me a me livrar dela. Diga-lhe que temos que visitar a vov num asilo ou algo assim.
	Que tal se fssemos visitar vov no condomnio? Ela poder mostrar a Marina a coleo de garrafas em miniatura e xampus de hotel...
	Hunter, podia me ajudar se quisesse. Eu faria isso por voc.
	O que posso dizer? Se no quer lidar com elas na manh seguinte, deve ir a outro lugar. "Dormiu bem? Eu tambm. Adeus."  Ou podia ter se controlado e no estaramos tendo essa discusso, pensou Hunter, desvencilhando-se. Queria agir corretamente com o irmo, mas no facilitando seu golpe para cima de Raven.
 sada, voltou-se para se despedir, mas deu de cara com a porta.

CAPITULO V

	Sabe, voc est indo muito bem.  Raven avaliou o semblante de Hunter enquanto ele observava tranquilamente a vista diante deles.  Muito bem mesmo. Devia estar orgulhoso de si mesmo.
Ele sorriu.
 Devo tudo  minha terapeuta.
Estavam no mirante coberto do centsimo stimo andar do World Trade Center, no sul de Manhattan. Tratava-se do edifcio mais alto de Nova York, duas torres gmeas, na verdade, e o passeio era a prova de fogo da terapia de Hunter. No final da ltima sesso de tratamento, na semana anterior, Raven informara que ele estava pronto para fazer um teste de campo, expondo-se deliberadamente  altura. Ele hesitara, at que ela se prontificou a cancelar um dia inteiro da agenda de trabalho para acompanh-lo, quando prontamente aceitou o desafio.
Foram de carro at Manhattan e passaram o dia desafiando a altura em vrias estruturas elevadas. Comearam tomando um dos elevadores panormicos do Hotel Marriott, em Times Square, vrias vezes. Hunter forara-se a olhar pelo vidro enquanto subiam, o saguo do hotel cada vez menor l embaixo.
O tempo todo, Raven lhe segurava a mo e o encorajava, avisando para se manter ciente do corpo e de seu centro de gravidade, dando dicas que ajudavam a lidar com o problema.
Estiveram tambm nos mirantes do Empire State, da Esttua da Liberdade e, finalmente, do World Trade Center. Aparentemente no controle da acrofobia, Hunter demorava-se ao mximo em cada locao, sempre com o brao firme em torno da terapeuta.
No que Raven se opusesse. Talvez devesse. Aps o que acontecera entre eles no Bom Humor, impunha-se uma atitude de profissionalismo, resistindo ao contato fsico. Mas no conseguia. No era seu estilo manter-se distante... mais que isso, tratava-se de Hunter, e era bom demais ter o brao dele a seu redor.
No era como se o contato fosse levar  repetio do beijo. Passaram o dia em lugares pblicos, ombro a ombro com hordas de turistas e, de qualquer forma, ambos sabiam que o beijo fora um acaso e nunca se repetiria.
Exceto naquele estreito limite entre realidade e sono, quando relaxava solitria na cama e deixava a mente vagar por territrio proibido. Nessas ocasies, voltava a sentir Hunter, o beijo, e tudo lhe parecia certo, no lugar. L no havia Brent, nem pacto da Aliana do Matrimnio. Eram s ela e Hunter...
Raven precisava se lembrar a todo momento de que Hunter no era apenas um paciente... e portanto, inacessvel... mas tambm irmo do homem com quem se comprometera a sair por trs meses, desde que ele continuasse interessado.
E Brent parecia se interessar mais a cada dia... ao passo que os sentimentos dela tornavam-se cada vez mais indefinidos. Inteligente, gentil e atencioso, o pretendente respeitava seu desejo de ir devagar nas intimidades, aceitando o fato de ela no estar preparada para um relacionamento fsico ainda.
Raven desconfiava de que, no fosse Hunter, j estaria apaixonada por Brent quela altura. Mas Hunter existia e a situao toda era confusa demais. Precisava de tempo para avaliar tudo. Levando isso em conta, a regra dos trs meses at a favorecia.
	Brent me contou que a levou para um vo no sbado  comentou Hunter.
	Sim, foi incrvel!  Raven acompanhou com o olhar o pequeno avio branco no cu abaixo deles.  Estvamos assim. Decolamos de um aeroporto comercial em Nova Jersey e voamos pelo lado oeste de Manhattan. Balanava um pouco e acho que fiquei verde, mas foi sensacional.
Hunter riu.
	Sempre fao o sinal da cruz quando decolamos e aterrissamos... e nem sou catlico!
Raven arregalou os olhos.
	Voc voa com ele? E a sua acrofobia?
	Eu... eu no queria que Brent soubesse sobre o meu medo de altura. Assim, banco o valento, mas fico de olhos fechados o tempo todo.
	E reza.  Ela sorriu.  Parece que d certo.
Como terapeuta, Raven de fato no entendia como Hunter era capaz de entrar num avio pequeno. Na cabine, o passageiro ficava grudado no pra-brisa, olhando l para baixo... Havia uma boa distncia at o cho quando se estava num desses aviezinhos.
O mirante em que se encontravam ocupava quase todo o permetro do centsimo stimo andar, enquanto na parte interna havia lojas de lembranas, lanchonetes e restaurantes. Os visitantes podiam ficar junto ao parapeito ou descer por passagens e ocupar bancos perto das paredes de vidro com vista panormica.
A visibilidade era excelente naquela tarde de fevereiro. Ao sul, avistavam Battery Park, a Esttua da Liberdade, a ilha Ellis, a ilha Governors, a ilha Staten e o oceano Atlntico estendendo-se ao longe. A esquerda, o rio East e o Brooklyn;  direita, o rio Hudson e Nova Jersey.
Raven fitou Hunter, visivelmente absorto com a paisagem, o cenho franzido. Tinha a impresso de que ele intercalava crises de pnico com perodos de calma. Era quase como se pudesse controlar a acrofobia. Ou isso, ou era capaz de controlar os sintomas!
Qualquer outra possibilidade no suportaria uma anlise acurada.
Com um leve toque, Hunter convidou-a a continuar o passeio pelo mirante. Cruzavam com pessoas de todas as raas e nacionalidades falando dezenas de idiomas. Um homem que se expressava numa lngua do Leste europeu, que Raven no conseguiu identificar, depositou uma moeda no binculo instalado para uso pblico e ergueu o filho pequeno para que olhasse atravs das lentes.
Hunter desviou Raven de um grupo de adolescentes que falava francs.
	Sabe, voc foi muito bem ontem  noite. Parecia  vontade no palco.
	Foi? Eu tremia feito vara verde. Sempre tremo, mas parece que estou melhorando.
	Brent finalmente viu uma apresentao sua. O que o impediu na semana passada? Ele disse que estava doente, certo?
Raven assentiu.
	Eu disse que cancelaria minha apresentao no Bom Humor para cuidar dele, mas ele no permitiu. Alegou que precisava s de descanso, que ia direto para a cama...
Hunter emitiu um som desdenhoso.
	Oh, no se preocupe, ele j est bem  assegurou Raven.  Era s um desses vrus de vinte e quatro horas, felizmente. O mais engraado  que no domingo ele telefonou para me convidar para sair na quarta-feira, sabendo que no samos em dia de semana e que s quartas-feiras eu vou ao Bom Humor.
	Para dar seguimento ao seu tratamento.
Ela riu.
	A cura espantosa do dr. Radley. De qualquer forma, Brent foi insistente sobre o encontro na quarta-feira, o que no  normal nele.  Deu de ombros.  Pelo menos, eu no achava que era. Quero dizer, poderia faltar  apresentao para cuidar dele, mas por causa de um jantar, que poderamos ter em qualquer outro dia?
	Vou adivinhar. Voc bateu o p e ele decidiu ir ao Bom Humor.
	Isso mesmo, e ele fez essa surpresa para mim depois da apresentao! Duas dzias de rosas amarelas. Acredita? Alis, voc deve t-lo ajudado a esconder o arranjo...
	Ficou no meu escritrio.
	Eu achava que sim. De qualquer forma, achei gentil da parte dele.  Teria sido mais gentil a presena dele nas duas primeiras apresentaes, com flores ou sem. Raven censurou-se instantaneamente. Ele quisera comparecer na semana anterior no fora culpa dele ficar doente.
Da lateral norte do mirante, viram a ilha de Manhattan estender-se diante deles. Raven reconheceu o Empire State e o cume do Citicorp Center. Avistavam-se ainda os edifcios da Chrysler e do Metropolitan Life.
Hunter envolveu Raven com o brao e ela indagou:
	Como est se sentindo?
	Estou bem. Ajuda ter voc aqui comigo.
	Acho que  como me senti quando me apresentei pela primeira vez no clube. Voc me incentivou a fazer algo que eu no faria espontaneamente nem em um milho de anos. No deixou que eu fraquejasse, esteve sempre l, encorajando, ajudando, sugerindo temas para rplica.  Ela riu.  Meu sargento particular.
Enquanto observavam a vista, nuvens pairaram sobre Manhattan fazendo sombra em vrios edifcios.
	Olhe ali.  Raven suspirou.  ... surreal.
	Tudo o que vimos ou ensamos...  declamou Hunter, olhando para a imagem.   um sonho dentro de um sonho.
Ela sorriu.
	Mais Edgar AUan Poe.
Ele permaneceu em silncio por um bom tempo. Sem encar-la, comentou:
	Imagino se tem ideia de quanto revela sobre si mesma quando est no palco.
	Acho que nunca pensei nisso. Devo me preocupar?
Hunter voltou-se, apoiou-se de costas no parapeito e cruzou os braos.
	Sinto que consigo entend-la melhor ao ouvir suas anedotas, da mesma forma que voc me entende durante as sesses de hipnoterapia.
Ela pensou nas apresentaes, nos comentrios sagazes sobre a famlia, amigos e relacionamentos romnticos.
	Ento, diga. O que aprendeu sobre Raven Muldoon?
Hunter estava mais bonito do que nunca, com a jaqueta preta aberta sobre o suter de gola olmpica. Seu corpo emanava calor e um aroma masculino sutil, sedutor. Raven sentiu uma vontade irresistvel de deslizar a mo entre a jaqueta e o suter, apoiar-se nele, juntar seus corpos, sentir os braos fortes a seu redor...
	O que aprendi sobre Raven Muldoon?  Hunter ponderou.  Aprendi que Raven  uma otimista, uma Poliana num mundo de cinismo e egosmo.
	Uma Poliana! Ai!  Ela levou as mos ao rosto.
Rindo, ele lhe tomou as mos e apertou contra o peito.
	Aprendi que Raven tem slida formao moral e, se o resto da humanidade est disposto a mandar tudo para aquele lugar, ela no v motivo para fazer o mesmo. Aprendi que Raven  uma amiga generosa e devotada. Pergunte s amigas dela do jardim de infncia. Aprendi que Raven  brilhante demais e competente demais para a maioria dos homens com quem se envolveu.
	Pode parar.
	Ela disfara bem  continuou ele.  Mas ultimamente comeou a imaginar se ela no  o motivo de estar com trinta anos e ainda solteira.  Inclinou a cabea para avali-la intensamente.  Aprendi que Raven tem todo esse amor guardado, s esperando pelo recipiente certo onde despejar.
Raven sentiu os olhos arderem. Triste, baixou a cabea.
Hunter consolou-a, recolhendo suas lgrimas antes que escorressem por todo o rosto.
	Meu irmo no sabe o tesouro que ganhou.
Estavam to prximos que o hlito de Hunter lhe acariciou
os lbios, quando ela quase sentia seu sabor novamente. Como se tivesse falado em voz alta, ele fitou sua boca e por um segundo ela pensou: Sim, beije. No pense em nada, apenas beije.
Ele remexeu o maxilar e avaliou seus olhos, soltando-a em seguida. Raven recuou um passo e respirou ofegante. De repente, deu-se conta de onde estavam, da multido, do barulho, do cheiro de pizza e de batatas fritas, da cidade esparramando-se centenas de metros abaixo.
Raven desviou o olhar para o cu, at se recuperar.
	Voc ainda quer andar l fora? Est frio. Mais de vinte graus negativos com o vento.
	Se voc quiser.
	Otimo. Vamos l.  O frio intenso era do que ela precisava naquele momento. Pelo jeito de Hunter, ele devia sentir o mesmo.
No pela primeira vez, ela pensou: Por que nada pode ser simples?
Hunter a segurou pelo brao, interrompendo a caminhada.
	Raven...  Seus olhos refletiam emoes conflitantes.  Voc devia ser um pouquinho mais cnica e um pouquinho menos crente.
Ela franziu o cenho.
Hunter enfiou as mos nos bolsos. Raven sabia que ele travava uma batalha consigo mesmo. Quando voltou a encar-la, a expresso dele era um enigma.
	Esquea. Quem sou eu para dar conselhos, certo? Vamos ver esse terrao.
	 um broche novo?  Hunter olhou para o adereo medieval em forma de corao, enquanto pendurava a jaqueta no mancebo antigo no canto do escritrio.
	Brent me deu no Dia dos Namorados.
Eu devia saber, pensou ele.
Ela acariciou o broche liso de mbar que contrastava dramaticamente com o suter preto largo, tipo tnica.
	Adoro mbar. Os brincos combinam.  Ela ancorou os cabelos na orelha para lhe mostrar.
	Bonito conjunto.  Hunter adiantou-se e tocou num brinco. Os dedos roaram no lbulo e ele mais sentiu do que ouviu a respirao dela falhar.
Hunter afastou-se. Dia dos Namorados. No podia evitar pensar que a data romntica incentivara Raven a consumar o relacionamento com Brent. No entanto, considerando que Brent passara o dia seguinte com Marina, duvidava de que houvessem chegado a intimidades.
Era a sexta sesso de hipnoterapia. Duas semanas antes, no mirante do World Trade Center, Raven o declarara num estgio bem avanado do tratamento, se no curado. Ele no precisava mais de terapeuta, afirmara, contemplando a costa de Nova Jersey. No precisavam marcar mais sesses.
Depois disso, de volta ao andar panormico, ela comeara a tagarelar, como se sentisse o impulso dele de beij-la novamente. Hunter sabia que a deixava nervosa, mas no estava pronto para abrir mo das sesses. Passara a depender delas, de sua dose de "Raven", o ponto alto de sua semana.
Assim, reforara a mentira sobre a fachada de valento e que ainda precisava trabalhar a acrofobia. Raven no questionou, ainda que comeasse a enxergar a farsa.
Condescendente, ela lhe dera o benefcio da dvida.
Talvez tambm desejasse aquela hora com ele durante a semana.
Como um vcio, ela monopolizava seus pensamentos durante os longos dias em que no se viam. E, como um vcio, a dependncia aumentava, embora tivesse certeza de que no levaria a nada, exceto mgoa, mesmo sabendo que ela estava comprometida com seu irmo, um relacionamento que considerava sagrado.
Brigar com Brent por causa de uma mulher? Antes das ltimas semanas... antes de Raven... a ideia seria ridcula.
Sua relao com Brent ficara tensa, para dizer o mnimo, durante as duas semanas e meia desde que ele lhe batera a porta na cara. E Brent nem sabia sobre as sesses de terapia clandestinas, o que aumentava a cada dia a sensao de culpa de Hunter.
	Voc parece disperso  comentou Raven.  Algo errado?
	No.  Hunter instalou-se na poltrona reclinvel e a regulou para ficar na posio horizontal.  Podemos comear.
 Talvez ento se convencesse de que tinha um motivo legtimo para estar ali.
Raven abriu o bloco de notas, que Hunter considerava o muro de segurana dela... um dispositivo que a convencia de que se tratava de um relacionamento terapeuta-paciente normal.
	Teve algum incidente relacionado a altura desde a nossa ltima sesso?  indagou ela, tomando seu lugar na cadeira de balano.
	No.
	Nenhum prdio alto de escritrios, nenhum...
	No. Nada.  Ele se mexeu na cadeira, tentando achar uma posio confortvel.
	Est bem... feche os olhos, Hunter.
Ele obedeceu.
	Voc est na praia  sugeriu Raven.  Deitado na toalha. Voc est ouvindo o som repetitivo das ondas quebrando na areia. O calor do sol...
	No posso.  Ele abriu os olhos.
	O qu? Est tenso?  Raven deixou de lado o bloco de notas e se inclinou para ele, preocupada. Seu perfume suave e refrescante o alcanou.  Gostaria de conversar por alguns minutos?
Hunter fitou-a. E acionou a cadeira.
	No posso continuar com isto.
Ela se endireitou. No disse nada, mas observou-o atentamente, enquanto ele apoiava os cotovelos nos joelhos e levava as mos aos cabelos.
	Sabe o que quero dizer murmurou, angustiado.
Constrangida, Raven fitou as mos no colo.
	No me diga que no sabe  continuou ele.
	Hunter...  Ela meneou a cabea, como se quisesse negar que a situao atingira aquele ponto.  Eu odeio isso.
Ele suspirou. Um minuto se passou sem que dissessem nada.
	Voc j se perguntou onde arranjei dinheiro para abrir o Bom Humor?
	Acho que sim  respondeu ela.  Mas no cabia especular. Ele lanou um olhar que dizia "adivinhe".  Brent?
Ele assentiu.
	Ele tomou emprstimos, sacou de alguns fundos de previdncia privada. Perdeu dinheiro com as multas e no est me cobrando nenhuma taxa de retorno. No fosse ele, eu estaria gerenciando o negcio de outra pessoa, sonhando com o dia em que teria bastante dinheiro para montar meu prprio estabelecimento.
Raven refletiu por alguns segundos.
	Voc se sente em dbito com seu ir: io.
Hunter sorriu, triste.
	Isso  o comeo do dbito. Ele tinha oito anos quando eu nasci, praticamente me criou. Quando eu cheguei... um feliz acidente, quero crer... meus pais j tinham meia-idade e estavam preocupados com as prprias carreiras. No que tenham me negligenciado ou algo assim, mas nossa irm, Tina, j estava na escola e... bem, acho que o beb da famlia sempre tem que batalhar seu espao.
	Brent tomou o posto de irmo mais velho desde o primeiro dia. Para ele, eu era seu projeto, sua responsabilidade. Eu costumava brincar perto dele e tudo o que eu queria...  Hunter sentia um n na garganta de emoo, a lembrana da adorao que nutrira ainda to forte!  Eu queria ser igual a ele. Queria ser ele.  Encarou-a.  Voc entende?
Raven assentiu, os olhos brilhantes.
	Quando cresci o bastante para me meter em encrenca, ele sempre me defendia  continuou Hunter, a lembrana trazendo um sorriso.  Eu arranjava briga com todo mundo, sabendo que meu irmo interviria e no deixaria que eu me machucasse. At o dia em que ele decidiu que eu precisava de uma lio. Eu tinha nove anos e provoquei um vizinho at chegarmos aos socos. Brent ficou de lado, dando uma ou outra palavra de incentivo, mas sem se intrometer.  Riu.  Meu nariz sangrou como nunca. Nunca mais arranjei briga.
	Deve ter sido difcil para ele  disse Raven.  Ficar ali, olhando o irmozinho levar uma surra e no fazer nada.
	Anos depois, Tina me contou como ele ficou nervoso. Mas era algo que ele precisava fazer. Ficou olhando para garantir que eu no fosse morto, mas, fora isso, eu estava por minha conta.  Hunter riu.  Canalha.
Raven sorriu, gentil.
	Ele ajudou a formar o homem que voc .
Hunter respirou, arquejante.
	Devo muito a ele. No apenas o dinheiro para abrir o clube, que vou conseguir pagar um dia. Devo... muito mais.
	Hunter...  Raven inclinou-se para a frente e pousou a mo sobre a dele.  Voc no fez nada de errado.
Ele riu, sentindo-se miservel.
	No fez  insistiu ela.
	Ele sabe.
Raven ia retirar a mo, mas Hunter a segurou, entrelaando seus dedos.
	Ele sabe como me sinto a seu respeito  revelou.  Aconteceu que... bem, no  importante. Para ele, voc no sabe de nada, e  assim que vamos deixar.  Buscou seu olhar.  Raven, no quero ficar entre voc e Brent. Nunca foi minha inteno. Quero que saiba disso.
	Nunca achei que tivesse sido sua inteno.
Devagar, ele liberou sua mo.
	No vou mais voltar aqui.  Fitou-a, desolado.  Vamos dizer que experimentei uma cura miraculosa.
	Eu vou parar de me apresentar no Bom Humor.
	No! Isso no... Oua, entre ns dois, voc era a que tinha uma fobia verdadeira. Voc trabalhou o problema, superou muita coisa. Raios, no pode parar agora.
	 por isso que Brent anda tentando me manter longe do clube, no ? Por nossa causa.
Hunter assentiu.
	Ele sabe que... quero dizer, que ns...
	O beijo? No. Ele s no nos quer juntos quando ele no estiver por perto.  Hunter suspirou, desanimado.  Ele no confia em mim.
	Nem em mim.
	No  verdade. Raven, ele pensa que  um sentimento unilateral.  Hunter impediu-a de se manifestar.  Aposto como gostaria de desviar a raiva dele de mim assumindo um pouco da culpa, mas isso poderia provocar o rompimento entre vocs.
Meu problema  com Brent... tenho que consertar sozinho.
	Hunter,  mais complicado que isso.
	Sei o que voc sente por Brent. J os vi juntos. O que sente por mim no  o mesmo.  algo qumico... uma atrao superficial. Vai passar.
Raven tinha a voz trmula.
	No tenho tanta certeza...
	Vai passar  insistiu ele.  Se eu no estivesse por perto, voc j estaria dormindo com Brent... talvez at escolhendo o estilo das louas de porcelana.  Pensando na hipocrisia do irmo, acrescentou:  No fique se debatendo com isso. Por piores que sejam os seus pecados, no so nada no esquema maior do universo. Ningum  to importante.
	No sou a santa que voc imagina.
Hunter fitou Raven, linda sob a iluminao difusa. No, no era santa, pensou. Era um anjo, Um anjo dourado. Havia sinceridade em seu olhar. Ela realmente acreditava ser indigna de Brent. Por se sentir atrada pelo irmo dele? No suportaria ser a causa de sua auto-reprovao.
	Meu irmo no merece voc.
	Voc j disse algo assim antes. Eu gostaria que no fizesse mais isso.
	Mas  verdade.
	Por qu?
Hunter tentou verbalizar, mas no conseguiu. Brent ainda era seu irmo. E irmos no se traam. Meneou a cabea.
	Sei sobre as outras mulheres  revelou Raven, sorrindo ante a expresso atnita de Hunter.  No sou burra. Nem ingnua, nem tonta. Aprendi a ler os sinais. Levei algum tempo para relacionar os fatos porque... acho que no queria acreditar.
	Mas, se voc sabe...  Ele no conseguia imaginar o impossvel.  Por que ainda est com ele?
Raven ia responder, mas apenas suspirou, frustrada.
	No posso explicar.
	Talvez eu possa. Voc est cegamente apaixonada por um homem que no lhe d valor.
	No.
Hunter levantou-se.
	Voc me diz que no  ingnua, Raven, que no  tonta. Mas o que mais explicaria a sua atitude diante da traio dele?
	Eu no... no estou de acordo, no de verdade.  complicado. Tenho que explicar... algumas premissas. Preciso falar com Amanda e as outras. Realmente, no posso discutir esse assunto com voc agora.
	Porque eu no entenderia,  isso? No posso entender a profundidade da sua devoo...
	Hunter, pare!
Ele agarrou o encosto da cadeira de balano com as duas mos e inclinou-se sobre ela at que estivessem quase de nariz colado. Ela recuou.
	O homem a est traindo, Raven!
	Ele... nunca prometeu fidelidade.
Hunter forou-a a encar-lo.
	Est me dizendo que nunca tocaram no assunto?
Ela hesitou.
	Deixe-me adivinhar  disse ele.  Voc lhe disse que ele era o nico. S que ele no lhe disse o mesmo, certo? Talvez voc tenha presumido isso, na ocasio. Agora que entendeu, tem esperana de que ele mude...
Raven tentou se levantar. Hunter pousou as mos em seus ombros, segurando-a no lugar.
	O que voc acha... que se ficar calada e tolerar tudo, se o amar bastante, vai transform-lo?
Ela ergueu o olhar, o corpo tenso.
	Solte-me.
	Voc sabe que ele a engana. Ele no pegou nenhum vrus de vinte e quatro horas, mas disse uma verdade: foi mesmo para a cama e ficou l...
Ela agarrou os pulsos dele, tentando se libertar, sem sucesso. 
	H um minuto, voc imaginou a loua que eu e seu irmo escolheramos. Agora me diz que estou me entregando a um trapaceiro mentiroso.
	Voc pode no ter notado, mas estou meio confuso no que se refere a voc.  Arrependido, Hunter acrescentou:  Se ficar com ele agora, sabendo de tudo, voc  um capacho.
 Com isso, soltou-a.
Ela pulou da cadeira e o empurrou na altura do trax com fora surpreendente.
	Como se atreve!  gritou, em prantos. Golpeou-o novamente, e ele a segurou pelos pulsos.  O que lhe d o direito de me julgar?
As lgrimas corriam pelo rosto. Hunter a envolveu nos braos, mantendo-a segura. Ela relutou, soluando. Ele pressionou os lbios no rosto quente e molhado.
	 isso mesmo, anjo  sussurrou ele.  No tenho nenhum direito no que se refere a voc, e fico louco com isso.  Ergueu o rosto e beijou os lbios trmulos.  Gostaria de t-la conhecido antes  murmurou, contra a boca macia.  Daria tudo...
Aquele beijo foi diferente do primeiro. Dessa vez, Hunter estava muito ciente do que fazia, porm continuou, porque se tratava de um beijo que o alimentaria pelo resto da vida.
Raven tentou se desvencilhar. Hunter a conduziu  poltrona reclinvel e acionou a posio horizontal.
	Hunter...  Raven parecia chocada por se ver sob seu domnio.
	Se voc fosse minha, eu nunca olharia duas vezes para outra mulher.  Ele capturou sua boca novamente, segurando-lhe o rosto. Trmula, ela lutava contra os prprios impulsos. Sabendo que ela reagia em termos puramente fsicos, ele foi vil o bastante para se aproveitar da atrao primitiva.
Ele se ergueu um pouco para se ajeitarem no espao estreito. A saia longa enroscava-se nas pernas dela. Hunter levou uma espetada do broche que Brent dera a ela de presente, como um lembrete de sua culpa. Mais tarde, no poderia convencer-se de que simplesmente perdera a cabea, que no pretendera beij-la to profunda ou longamente, nem toc-la daquele jeito, varrendo seu corpo com as mos.
Absorveu o leve soluo de Raven, que virou gemido quando lhe moldou os seios nas mos. O decote amplo da tnica deslocara-se, revelando a ala branca do suti. Hunter sentiu a pele sedosa do ombro com a boca e avanou aos beijos at o pescoo.
Ela se agarrava  camisa dele, sem aproxim-lo nem afast-lo. Hunter a fitou no rosto, enquanto lhe erguia a barra do suter e puxava a pea at os ombros. Ela entreabriu os lbios e agarrou-o com mais fora, sem inteno de det-lo. Ele liberou o fecho frontal do suti. Raven desviou o rosto, sem dvida debatendo-se com a prpria conscincia.
Os seios eram mais lindos do que ele imaginara. Tocou um mamilo rgido. Raven arqueou o corpo, como se sentisse dor. Acariciou-a de leve, provocando, brincando. Ela emitiu gemidos desesperados e arqueou mais o corpo, convidando-o a se aninhar junto dela. Queria sentir a ereo.
Raven era extremamente sensvel, respondia ao menor estmulo. Hunter abocanhou-lhe um mamilo. Ela gritou, abandonando-se na poltrona. Segurando-a deitada, ele a provou, lambendo, degustando-a. Ofegante, ela se agarrava cada vez mais a ele.
Hunter fincou um joelho na poltrona e ergueu Raven pelo bumbum, ajustando-se a ela, insinuando-se, sempre sugando o seio. Febril, ela movia a cabea de um lado a outro, desesperada de prazer. Ao murmurar seu nome, parecia angustiada e distante. At que ordenou:
Pare!
A ponto de atingir o orgasmo, Raven alarmou-se, mas era tarde demais para Hunter parar, mesmo que quisesse.
	No...  gemeu ela, arqueando o corpo, insinuando-se contra ele.
Ele introduziu a mo entre as coxas dela, massageando-a por baixo da saia at que ela estremecesse convulsivamente de desejo.
Ento, tomou-a nos braos e aninhou-a junto ao ombro. Com o suter ainda sobre os ombros, ela apertou os seios contra seu trax, os batimentos acelerados do corao se aplacando aos poucos. A fragrncia feminina do orgasmo misturava-se ao perfume delicado de Raven, exigindo de Hunter o mximo controle. O pnis pedia liberao, confinado na cala jeans.
Raven roou os clios no pescoo de Hunter quando abriu os olhos. Ele se deliciou com o toque. Estava preparado para ouvi-la chorar, ou xing-lo... ou, mais provavelmente, praguejar contra si mesma. Em vez disso, ela ficou passiva em seus braos.
A mo delicada repousava em seu trax. Ele a pegou e cobriu de beijos os ns dos dedos. Desejava saber em que ela pensava, mas no indagou. Se ela sentisse vergonha, que consolo poderia lhe oferecer?
Assim, manteve-a nos braos e fantasiou que tinha o direito de fazer aquilo... de amar aquela mulher, de lhe dar prazer, de abra-la e de sonhar.
Ela se mexeu, finalmente, e o encarou. O olhar no revelava a confuso interior que ela experimentava. Ele lhe afastou os cabelos desgrenhados do rosto.
	No vou mais ficar sozinha com voc  informou ela, decidida.
	Eu sei.
Raven observou-o em silncio e ento se soergueu. Devagar, traou a linha do rosto dele, como se gravasse cada uma na memria. Beijou-o... um beijo solene imbudo da frustrao que sofrera por seis semanas.
A seguir, ela baixou a mo  cintura dele, notando a ereo pronunciada sob a cala jeans. Ele grunhiu selvagem quando ela o apalpou.
	Raven...
Ela desafivelou o cinto.
	O que voc est fazendo?  protestou ele, desesperado.
	Quero fazer com voc o que voc fez comigo.
	Voc no precisa fazer isso, anjo.  Ele lhe segurou a mo.
	Mas eu quero.
Mais provavelmente, sentia-se obrigada. Hunter no deixou de ver a ironia... ela no quisera o clmax em seus braos, ficara desolada quando ocorrera e, mesmo assim, sentia que lhe devia uma reciprocidade.
	No quero que faa isso.  Ele fechou de novo a fivela.
	Hunter...
	J lhe dei o bastante para se lamentar.
Hunter esforou-se para dar sentido s prprias aes. Trs semanas antes, recusara os favores de uma moa porque no era a mulher que ele amava. Naquele instante, no permitia que a mulher a quem amava o recompensasse, porque ela queria fazer aquilo pelos motivos errados.
No costumava ser to nobre, mas naquele momento experimentava o sentimento e no gostava nem um pouco.
Naturalmente, havia atitudes nobres e atitudes nobres. Imaginava que o que acabara de fazer com a mulher de seu irmo anulava todo o resto.
Fechou o suti de Raven, baixou-lhe a tnica e levantou-se da poltrona reclinvel. Sentada, ela o observou vestir a jaqueta. Talvez a temperatura abaixo de zero l fora resolvesse o problema de superaquecimento dele. Seno, sempre havia a opo de um ato solitrio em casa... uma opo que ele praticara vezes demais nas ltimas semanas, graas  vida amorosa em suspenso.
Enquanto calava as luvas e preparava-se para sair, Hunter no ousou dizer o que pensava.
Diga-me que ainda assim no fiz nada de errado.
Inclinou para Raven, beijou-a na testa e saiu do consultrio.

CAPITULO VI

	S uma lasquinha para mim  disse Amanda.
Raven viu a amiga arregalar os olhos quando vov Rossi cortou uma boa fatia de bolo de queijo italiano.
	Eu disse uma lasquinha!
Vov Rossi desdenhou enquanto pousava com deciso o prato de sobremesa bem servido diante de Amanda.
	Amanda, conhece minha av h um quarto de sculo 	disse Charli.  Voc j a viu cortar uma lasquinha de alguma coisa?
	Voc est muito magra.  Vov Rossi beliscou o brao de Amanda.  Os homens, eles gostam de ter o que agarrar, entende?
Pousou a mo gorda no ombro de Raven.
	E voc, passarinho? Est pronta para uma segunda fatia? 	indagou a senhora robusta.
"Passarinho" era o apelido de Raven, cujo nome significava corvo, em ingls. Mas era vov Rossi que mais lembrava o pssaro: viva, s vestia de preto havia nove anos. Fora esse detalhe, a velha senhora no mudara muito ao longo dos anos. Prendia os cabelos grisalhos num coque  nuca e ainda fazia o melhor nhoque da periferia de Nova York. Tinha opinio para tudo, principalmente sobre o estado civil da neta e das amigas.
Raven pousou a mo sobre a da vov.
	Obrigada, sra. Rossi, mas comi demais. Tudo estava delicioso, como sempre.
Vov Rossi acariciou-lhe a mo.
	Voc  uma boa moa. Por que ainda no se casou?
Raven riu.
	S posso dizer o mesmo que disse nas outras vezes que me perguntou. No achei o homem certo.
	Minha Carlotta disse que voc tem um rapaz. Um bom rapaz. Faa com que ele lhe coloque uma aliana no dedo, passarinho. Voc no vai ficar mais jovem.
	No estou ansiosa por uma aliana dada por ele...
Vov Rossi emitiu um som rude e fez um gesto dispensando aquela noo. Junto ao bufe da sala de jantar, retirou o bule da cafeteira. Raven e as amigas sabiam que no adiantava pedir para que ela se sentasse, que elas mesmas se serviriam. Vov Rossi mudara-se para a casa dos pais de Charli por ocasio do falecimento de vov Rossi, nove anos antes. Ela se intrometia na vida das trs com o mesmo zelo com que se intrometera na vida do marido por seis dcadas.
Essa preocupao fazia bem a vov Rossi, mas, na verdade, a nonagenria precisava de ajuda para se vestir e para lembrar-se de tomar os remdios.
E no apenas vov Rossi precisava de ateno diria. O filho e a nora, pais de Charli, tambm j tinham setenta anos e era rara a semana em que Charli no tinha que acompanhar um dos dois ao mdico ou a laboratrios para fazer exames. Ela tambm lavava as roupas e fazia o supermercado. Supervisionava os remdios, as finanas e a manuteno da casa. Tudo isso, alm da carreira como professora de msica da escola secundria.
Charli era a mais nova de oito irmos. As irms e irmos estavam todos casados e criando suas famlias, ocupados demais para cuidar dos velhos. Assim, a tarefa naturalmente recara sobre a caula solteira, cuja criao tradicional ditava que o nico motivo aceitvel para uma moa sair da casa dos pais era o casamento. Moa solteira "de bem" no montava casa sozinha.
Raven sabia que Charli, ainda que no tivesse que cuidar dos velhos, considerava-se comum e tmida demais para atrair um marido. Sabia tambm que a amiga aguardava seu aniversrio em abril com medo e excitao, pois se veria objeto da segunda caada ao marido da Aliana do Matrimnio.
	Bem, no vou recusar uma segunda fatia, sra. Rossi  disse Sunny, estendendo o prato.  Oua, Raven, se voc no quer Brent, talvez eu considere...
	No sei se voc vai querer ficar com ele, tampouco.
As quatro ergueram o sobrolho. Raven sabia em que estavam pensando. Se o "bonito" tinha alguma falha que o inabilitava at para Sunny, ento devia ser grave.
Qual  o problema?  indagou Amanda.  Ele  um assassino em srie canibal?
	Ele est me traindo.
Charli ficou boquiaberta.
	Isso  terrvel!
Amanda emitiu um suspiro de desgosto e levou a xcara de caf aos lbios.
Vov Rossi disse um palavro em italiano.
	Hum  murmurou Sunny.
	Vem acontecendo durante os dois meses em que estamos juntos  continuou Raven.  Na semana passada, ele foi esquiar em Catamount... uma noite fora com os amigos, supostamente. S que ontem, na casa dele, abri as gavetas procurando descansos para copos e deparei com trs fotos da viagem. Em todas, Brent aparecia enroscado com uma sirigaita de cabeleira preta e bumbum arrebitado. Levando tudo isso em conta, acho que posso ser liberada da regra dos trs meses.
Vov Rossi sabia sobre a regra dos trs meses. Era a nica estrangeira que admitiram no pacto da Aliana do Matrimnio. Serviu-se de caf e ocupou uma cadeira.
	No to rpido, passarinho.
	De que adianta continuar?  indagou Raven.  No vou me casar com um homem em quem no confio.
	Talvez ele mude  disse Charli.
Amanda lanou um olhar desgostoso a Charli.
	Aprendam comigo. Homens traidores no mudam.  Amanda nunca fora to cnica acerca de seus dois casamentos
fracassados.
	Deixe-me perguntar.  Sunny apoiou os cotovelos na mesa e inclinou-se para Raven.  Voc e Brent concordaram com um relacionamento exclusivo?
	No propriamente.  Raven devia saber que Sunny tentaria racionalizar o comportamento mulherengo de Brent. Antes que a amiga ficasse muito convencida, acrescentou:  O que eu quero dizer : ele tomou cuidado para que eu no sasse
com outros rapazes, mas no aplicou a regra a si mesmo.
	Percebem por que no vou me casar novamente?  disse Amanda.  Eles so todos assim.
	No, no so  protestou Charli.  Meu pai nunca traiu a minha me. E vov tambm no, no , vov?
		Homens e mulheres so diferentes  explicou vov Rossi. 	O homem faz amor com voc, monta uma casa com voc, faz filhos com voc e est sempre olhando... at mais que olhando, se tiver chance.  a natureza deles. Uma mulher inteligente sabe como satisfazer seu homem, como ser todas as mulheres para ele, assim ele no fica se perdendo a caminho de casa.
Raven deduzia que vov Rossi fora uma dessas mulheres inteligentes que sabiam como manter seu homem com rdea curta. Se seu adorado Srgio escapara uma ou duas vezes durante o casamento de sessenta anos, ela no tornaria o fato pblico quela altura do campeonato.
	A senhora est certa num ponto, sra. Rossi  opinou Amanda.  Os homens so uns cachorros.  Raven, quer que eu dispense Brent para voc?
	No!
	Posso mandar quebrar as pernas dele  ofereceu-se vov Rossi.
	No!
	Eu estava brincando!
	Acha que Brent se acalma quando a coisa ficar sria? 	indagou Sunny.
	Francamente, duvido.
	Conversou com ele sobre isso?  indagou Charli.
	No.  Raven tateava o guardanapo.  Ele no sabe que eu sei.
	Por que no?  indagou Sunny.  Talvez vocs possam esclarecer tudo.
- Eu s... no me sinto confortvel falando sobre isso.
	Bem, supere isso  aconselhou Amanda.  Confronte o trapaceiro e veja como ele rasteja.
Raven fitou a toalha de mesa rendada.
	 complicado.
Vov Rossi emitiu um som... uma quase tosse, seguida de um som tpico.
Sunny recostou-se.
	Oh, no.
	Vocs entenderam mal!  defendeu-se Raven.
Charli ficou boquiaberta.
	Raven? Voc est traindo Brent?
	No! Quero dizer... e se estiver? Ele traiu primeiro.
	Vov Rossi estava pronta para um conselho prtico.
	Seja l o que fizer, no deixe que ele descubra.
	Quem  o sortudo?  perguntou Amanda.
	No h nenhum sortudo  insistiu Raven.  No h mais. Est acabado. Nem mesmo...  Apoiou a cabea entre as mos e gemeu.
Raven no via Hunter havia duas semanas e meia, desde que ele aplicara nela sua tcnica manual de terapia, bem ali na poltrona reclinvel reservada a pacientes de hipnose.
	Bem, se voc ainda tivesse esse outro rapaz...  ponderou Sunny, garfando sua segunda poro de bolo.  E se realmente gostasse dele, talvez voc pudesse romper com Brent antes dos trs meses. Acho que nunca pensamos nessa possibilidade.
	Mas ela no tem o outro  esclareceu Amanda.  Vamos, Raven, quem  ele?
	No  importante. S um rapaz que eu... nem estava vendo, s...
	Sentia atrao fsica?  provocou Amanda. Ento, engoliu em seco.   o irmo!
As outras trs mulheres engasgaram juntas.
	Est dormindo com o irmo de Brent?  perguntou Sunny, sempre direta.
	Eu no estou dormindo com ele!
	No mais  prontificou Amanda.
Vov Rossi emitiu aquele som conhecedor outra vez, mais alto.
	Eu no dormi com ele. Propriamente.
Amanda tomou  restante do caf.
	Exatamente que tipo de sexo voc fez com o irmozinho do seu namorado?
	Usaram camisinha?  questionou vov Rossi.
	No foi assim! Ns s... foi s... De qualquer forma, nas atuais circunstncias, no posso continuar saindo com Brent.
	Por qu? Se com Hunter acabou?  indagou Sunny, sempre prtica.
	Porque ela no queria que tivesse acabado  concluiu Amanda.  Ela quer o irmozinho bonito e no quer ficar com o trapaceiro.
	Mesmo que no tivesse acabo, estaria acabado  disse Raven.  Quero dizer, estava malfadado desde o comeo, isso
entre mim e Hunter. Ele tem um forte senso de lealdade familiar.
	Bom menino  avaliou vov Rossi.  A famlia  tudo.
	Ele se sente to mal quanto eu pelo que aconteceu. Pior. At esse caso comigo, ele sempre fora muito unido a Brent. Sinto que os separei.
	Ento, mesmo que rompa com Brent, voc no poder ficar com Hunter porque ele sente como se a tivesse roubado do irmo.
	E no  s isso.  Raven largou-se na cadeira.  Hunter no  do tipo que se casa. Ele ainda  muito jovem... vinte e seis... e est empenhado em consolidar o clube. Casamento  algo que nem lhe passa pela cabea. Mesmo que fosse possvel ficar com ele... um dia eu ia querer me casar. Quero filhos. Uma casa com jardim. No ia dar certo.
Sunny suspirou.
	Querida, sei que no vai gostar de ouvir, mas voc tem que se acertar com Brent. Converse com ele. Conte a ele como Ise sente. Talvez ele s precise saber que voc leva o relaciojnamento a srio.
	Acho que ela tem razo  apoiou Charli.  De qualquer  forma, se comearmos a quebrar as regras logo, ento o negcio [todo vai por gua abaixo e ningum sair ganhando.
	Aguente at o ltimo ms  sugeriu Amanda.  Se no  puder faz-lo se arrepender, faa-o sofrer. Ficarei contente em |lhe passar umas dicas.
Raven voltou-se para vov Rossi em. busca de apoio, mas ela deu de ombros e olhou para Amanda.
	Pela primeira vez, concordo com ela.
	Por isso, voc deixou de se apresentar na noite de amadores  observou Sunny.
Raven assentiu.
	Odiei quando voc desistiu. Estava indo to bem! No pode voltar?  um lugar movimentado... voc no tem que lidar com Hunter propriamente, tem?
	Bem, na verdade no, se no quiser.
Raven no completou o pensamento. A verdade era que estava I ansiosa para voltar ao palco; mais que isso, estava ansiosa para ver Hunter novamente. Queria olhar para ele, contemplar o semblante familiar, ouvir a voz rica e sedutora. Poderia fazer isso no | clube lotado, sem violar a resoluo de no ficar sozinha com ele. Principalmente se...
	Irei com Brent  decidiu.  Se ele no for, eu no vou.
Sunny deu de ombros.
	Faz sentido.
As demais tambm concordaram.
	Fica assim, ento. Vou verificar se Brent est livre na quarta-feira.
Raven j contava as horas.
Raven parou  porta do pequeno escritrio de Hunter, nos fundos do clube Bom Humor. Ele conferia as notas fiscais de uma remessa de bebidas com Matt, o subgerente, e no percebeu sua presena de imediato.
Ela no estava preparada para o prazer que sentiu ao v-lo novamente aps trs semanas. Fitou os dedos longos, os pulsos e braos fortes, lembrou-se do que haviam feito na poltrona reclinvel de seu consultrio... o que ele fizera, como a tocara, como provocara seus mamilos. Com a mo entre suas coxas, ele acariciara, provocara, forara-a a render-se...
Quando ela tentara retribuir o prazer, porm, ele a impediu. No porque no desejasse, mas para poup-la de mais arrependimento.
Hunter achava que seus sentimentos eram superficiais, regidos por hormnios. Aps trs semanas, ela no tinha mais dvidas: o que sentia pelo irmo do namorado ia alm de pura reao qumica.
Mesmo que rompesse com Brent, no teria Hunter. Ele tinha um cdigo de honra pessoal e no ameaaria o relacionamento com o irmo por ela.
Hunter ergueu o olhar e viu-a, finalmente.
	Oi  saudou ela, tmida.
Matt ergueu o olhar dos papis.
	Raven! Achei que tinha nos abandonado  brincou o subgerente.
	E deixar meus fs?  respondeu ela.   possvel fazer uma apresentao hoje  noite?
	Para voc? Ns abrimos um espao.  Matt ajeitou os culos e verificou a agenda.  Que tal sr a nmero trs?
	Assustador. Nunca fui uma das primeiras.
	Matt, v verificar o sistema do som, est bem?  pediu Hunter.  Falhou algumas vezes ontem  noite.
	Est bem  concordou Matt, embora j houvesse tomado providncias.
Hunter apoiou-se no canto da mesa.
	No pensei que fosse voltar.
	Nem eu. Brent vir se encontrar comigo.
Raven sabia que no devia estar ali, apesar da porta aberta.
	Amanda, Charli e Sunny... elas me incentivaram a continuar me apresentando. Disseram que me fazia bem.
- Faz  confirmou ele.  Nunca quis que voc parasse   acrescentou, sem emoo.
E assim que vai ser daqui para a frente entre ns, pensou ela. Conversas formais, distantes. Mesmo quando rompesse com Brent, no ms seguinte, a parede invisvel ainda estaria l.
O telefone tocou. Raven despediu-se enquanto ele atendia.
	 para voc  avisou ele, chamando-a.   Brent.  Passando-lhe o fone, saiu do escritrio fechando a porta.
	Hunter no precisava cham-la  disse Brent.  Bastava dar o recado.
	Pensei que j estivesse chegando  reclamou Raven.
	O pior aconteceu. Torci meu tendo de Aquiles na musculao. Di muito. Acho que no fiz bastante alongamento.
Estou cuidando disso, mas no poderei ir ver a sua apresentaco. Desculpe-me, querida.
	No devia ir ao mdico?
	Vou amanh, se no melhorar. Bem, boa sorte...
	 a perna direita ou esquerda?
	Direita.
	Como voc voltou da academia?
	Dirigindo.
	Difcil com o tendo de Aquiles direito torcido...
Ele hesitou um pouco.
	O que posso dizer? Sou duro. Oua, vou me deitar agora.
Com quem!?, pensou ela.
	No se esquea de mancar quando me vir da prxima vez.
Raven no suportava mais. Somente a culpa por desejar Hunter a impediu de se confrontar com Brent naquele momento. Mas era evidente que Brent no considerava o irmo uma ameaa. Era como se a quisesse ocupada... para se dedicar  bambi da tarde.
	No me esquecer de mancar? O que quer dizer? No acredita que me machuquei?
	No, no acredito, mas no  isso o que o atrapalha.  a mulher que levou a Catamount para esquiar no fim de semana?
A voz de Brent denunciou uma ponta de raiva:
	O que Hunter lhe disse?
	Hunter no teve que me dizer nada. Eu descobri sozinha, Brent. E no foi difcil. A garota morena de cabelos compridos... foi ela que deixou a revista de alimentao vegetariana na sua casa?  Brent era notoriamente carnvoro.  Talvez seja a mesma que deixou o diafragma na caixa de remdios...
	Raven, querida, eu nunca quis mago-la.
	Oh, talvez por isso tenha mentido, em vez de declarar desde o comeo que no queria um relacionamento exclusivo. Bastava dizer.
	Mas voc no queria sair com outros!
	Est bem, vou completar o raciocnio. Eu no queria sair com outros rapazes, o que lhe era adequado, mas voc queria ver outras mulheres, assim, me deixou acreditar...
	At parece que eu a enganei!
	Espere a!  Raven agarrou o telefone.  Voc estava me enganado, Brent. Enganar  isso!
	Voc no estava pronta para mim. Voc queria esperar. Eu aceitei.
	Oh, vamos ver se eu entendi. No h nada de errado em voc dormir com outras mulheres, quando supostamente deveria estar saindo s comigo, porque voc tem essa necessidade masculina que o leva a procurar um escape, ou corre o risco... no sei, pode sofrer um dano no rgo ou algo assim...
- Oh, por favor.
	...ento, enquanto espera eu me decidir se estou pronta para intimidades,  perfeitamente legal mentir, enganar e esconder.
	Se voc me desse alguma indicao de que estava realmente comprometida, eu no teria feito isso.
	No se atreva a me culpar pelos seus atos! Eu lhe disse h dois meses que estava saindo s com voc. Em vrias ocasies, discutimos a seriedade do nosso relacionamento. Cheguei a pensar que podamos ter algo permanente.
	E agora?
	Est acabado.  Naquele momento, nem o pacto da Aliana do Matrimnio a deteria.
	No faa isso, Raven. Vamos conversar...
	No adianta prolongarmos isso, Brent. Eu j me decidi.
	Eu cometi um erro. No jogue o que temos por um nico erro. Tudo vai ser diferente daqui para a frente. Eu juro.
	Brent...
	Oua, eu vou ao clube. Estarei a em...
	No. No venha aqui.
	Precisamos conversar.
	No esta noite. No aqui. Eu no quero v-lo, Brent.
Nesse momento, Raven ouviu, na outra ponta da linha, uma porta abrindo-se e uma voz feminina interrogativa. No ouviu a resposta de Brent, mas ouviu a porta se fechando com firmeza. Ele voltou ao telefone.
	Amanh  noite, Raven. Eu irei  sua casa.
	Vou ao cinema com Amanda amanh. Brent, por favor, no temos nada a conversar...
	Sexta-feira, ento.
Era bvio que ele no desistiria. Raven concluiu que no faria mal v-lo mais uma vez. Traindo ou no, ele seria dispensado em um ms.
	Est bem  concordou.  Sexta-feira  noite.
	Eu vou ...
	No. Eu vou  sua casa  disse Raven.
	Na minha casa, ento. Venha por volta das sete horas. Eu farei o jantar.
	Nada de jantar.
	Raven...
	No  um encontro, Brent. Vamos nos concentrar em esclarecer a questo.
	Est bem. Sexta-feira s sete. Ns vamos superar isso,
Raven  prometeu ele.
Raven no queria ocupar uma mesa sozinha e jantar. Foi ao bar, pediu um coquetel fraco e conversou com a atendente, Yvonne, at o show comear.
Estava um pouco nervosa, aps vrias semanas longe do palco, mas assim que se viu sob as luzes, no demorou a retomar o ritmo. Descreveu uma visita recente aos pais aposentados, em Fort Lauderdale. Salientou as diferenas entre geraes com as quais a plateia se identificaria e foi recompensada com aplausos calorosos.
Dali a uma hora, o show acabou e Hunter dispensou a ateno da plateia. O clube esvaziou-se, exceto pelos empregados que fariam a limpeza e fechariam o local.
Raven encontrou Hunter no escritrio, mas ele no estava sozinho. Conversava animadamente com um casal simptico mais velho e Dolores Beal, uma amadora que se apresentara com sucesso naquela noite.
	Oh, eu... falo com voc depois  murmurou Raven, recuando.
	Voc no vai a lugar algum  disse Dolores.  J amos mandar Hunter busc-la.
	A mim?
Elas trocaram cumprimentos, sorrindo, simpticas.
	Estvamos morrendo de vontade de conhec-la, Raven. Brent nos falou muito sobre voc. Sou Audrey Radley e este  meu marido, Mike.
Os pais de Brent! Raven lanou um olhar a Hunter, que se mantinha srio.
	E... um prazer conhec-la  murmurou  senhora.  Brent disse que vocs estavam na Inglaterra. Visitando parentes.
	Voltamos ontem.  Mike Radley cumprimentou-a.  Brent nos disse que  to talentosa quanto bonita e no estava mentindo. Por falar nisso, onde est ele?
	Brent no pde vir  explicou Raven.  Ele torceu o tendo de Aquiles na ginstica.
Audrey franziu o cenho.
	Falei com Brent depois que chegou em casa e ele no comentou anda.
Raven capturou o olhar de Hunter. Remexendo um msculo do maxilar, ele desviou o olhar.
	Bem, acho que ele no quis preocupar. No deve ter sido srio.
	Ento, quando voc e Brent viro para jantar?  indagou Mike.  Que tal no domingo? Vamos fazer um pernil.
	Oh, eu... eu no sei  desconversou Raven.  Acho que planejei algo para o domingo...
Romper o compromisso com o filho deles, para comear.
	Que tal no outro domingo, ento?  indagou Audrey.
	Bem...
	Audrey, deixe a moa respirar  brincou Dolores.
	Voc esteve tima l no palco  elogiou Raven, ansiosa por mudar de assunto.
	Obrigada. Esses dois me convenceram a subir  disse ela, indicando o casal.
	Que tal, em comparao ao plpito?  indagou Hunter.
	No sei ao certo, com todas aquelas luzes, mas acho que ningum dormiu  respondeu Dolores.
	Ningum dorme nos seus sermes, Dolores. Ningum se atreveria.
	Sermes?  indagou Raven, de olhos arregalados.  No admira estar to  vontade no palco.
	Raven, esta  a reverenda Dolores Beal, da nossa parquia 	apresentou Hunter.
	Oh, ento ainda se lembra disso  acusou a religiosa. 	Hunter, devo dizer que trabalhou muito bem aqui neste clube. Estou orgulhosa.  Beliscou a bochecha dele.  Eu me diverti muito hoje.
	Volte quando quiser, reverenda. A plateia adorou.
	Precisamos ir.  Audrey abraou Raven, afetuosa.  Diga a Brent para lev-la em casa. Logo, est bem?
	Estou contente por nos conhecermos, afinal  elaborou Raven, cautelosa.
Dolores e os Radley partiram. Hunter voltou-se para Raven:
	Tenho que fazer a contabilidade, Raven. Queria falar comigo?
	Precisamos conversar.  Raven tateou os botes de osso que fechavam sua tnica marfim de gola mandarim.  Mas acho que no  uma boa hora.
	No, no .
Ela avaliou o semblante dele, buscando alguma indicao de ternura. Ningum mudava assim, to de repente.
	Eu espero  prontificou-se.  No tenho pressa.
Hunter desviou o olhar, contrariado, e ento encarou-a.
	No temos nada a conversar.
	Acho que temos.
Por um segundo, Raven pensou detectar nos olhos dele um pedido suplicante. Deixe estar. No dificulte mais do que o necessrio. Ento, novamente mascarado, ele se voltou.
	Como quiser.

CAPITULO VII

Hunter pareceu esquecer-se da vida enquanto contabilizava os gordos lucros da noite. Tinha esperana de que Raven se cansasse de esperar e fosse embora. No entanto, recostada na beirada do palco, ela continuava aguardando.
Quando o ltimo funcionrio foi embora, Hunter demorou-se ainda vinte minutos no depsito, organizando caixas e verificando os estoques. Perdeu tambm dez minutos ao microcom-putador, organizando planilhas de custos, e mais vinte fazendo um levantamento da loua e copos. Findas as tarefas, no teve escolha seno voltar ao salo.
Raven largou o jornal que estivera lendo.
	Pronto? No precisa lustrar os copos? Talvez deva contar as azeitonas, para ter certeza de que tem o bastante para o ano. 
Hunter pegou uma cadeira e sentou-se nela do contrrio.
	Parece que me lembro de voc dizer algo sobre nunca mais ficar sozinha comigo novamente.
Ela parecia to jovem e viva, de pernas cruzadas pendentes do palco de madeira, o jornal no colo, a bolsa a tiracolo e o casaco pesado ao lado.
	No precisa ser assim, Hunter.  Ela o impediu de se manifestar.  E no me diga que no sabe do que estou falando.
Anda to frio e distante que at parece que eu fiz algo terrvel para voc.
	No acha que est exagerando um pouco?
	No, no acho.
	Raven. O que voc quer?
Ela ergueu as mos.
	S quero que tudo volte a ser como antes entre ns. Simples. Normal.  pedir muito? 
Ele sorriu, irnico.
	As coisas nunca foram simples entre ns e agir natural mente no  uma opo, nas atuais circunstncias.
	Ento, temos que pisar em ovos perto um do outro de agora em diante,  isso?
	E isso  confirmou ele.
Raven aguardou. Ele sustentou o olhar. O que ela queria? Que ele amenizasse a verdade fingindo que tinham algum tipo de relacionamento platnico e amigvel?
	Se  assim que tem que ser, gostaria de no ter voltado aqui  murmurou ela.  Devia ter ouvido meu ntimo e ficado longe.
	De que adiantaria? Ainda teramos que nos ver, por causa de Brent, ainda teramos que lidar um com o outro.
	E se Brent no estivesse mais entre ns?
	O que quer dizer?  Hunter endireitou-se.  Voc no vai romper.
Ela ia responder, mas apenas suspirou, frustrada.
	Se vai terminar com Brent, devia ter feito isso quando soube que ele a traa. Se quer terminar porque tem um fraco pelo irmozinho, pense bem, porque eu no vou ficar com voc. Deve saber que eu nunca faria isso com a famlia.
Raven enrubesceu, a voz saiu trmula.
	Eu sei.
Hunter detestava fazer aquilo, mas no permitiria que ela pensasse que podia dispensar o irmo e ficar com ele. Brent ainda era da famlia... e Raven gostava dele a ponto de aguentar suas escapadelas por tanto tempo. Ela investira dois meses da vida num relacionamento que caminhava para o altar. Nem Raven nem Brent fizeram segredo de seu desejo de se casar.
Hunter no podia deix-la ameaar seu futuro com Brent por um caso passageiro. Ele deixara claro j no incio que no era do tipo que se casava, embora sua opinio tivesse mudado naqueles meses, s que Raven no precisava saber. Isso at explicava a atrao fsica dela: a fascinao pelo inalcanvel.
Hunter s gostaria que seus sentimentos fossem to simples.
	J est dormindo com ele?
Ela o encarou.
	No.
	J pensou que, se voc se entregar ao seu homem, ele pode parar de tra-la?
	Est querendo me fazer odi-lo?
	Est dando certo?
	Talvez esteja esperando pela noite de npcias. Brent disse que voc  uma garota antiquada.
	Voc ficaria feliz se eu seguisse o seu exemplo e fingisse que no sinto nada por voc. Mas no posso fazer isso, Hunter.
No farei isso.
	Como voc  ingnua! Voc vai seguir o meu exemplo, porque qualquer outra atitude  sem sentido e destruidora.
Raven desceu do palco e caminhou at ele.
	Isto  sem sentido e destruidor?  Puxou-o pela nuca e beijou-o na boca.
Hunter saboreou o prazer por segundos antes de seu censor interno acusar a atividade perigosa. Desesperado, empurrou Raven com mpeto. Ela tropeou e bateu na borda do palco.
Ele experimentou impulsos contraditrios enquanto Raven recuperava o flego. Quando se deu conta, ela j pegara a bolsa e o casaco e deixara o clube.
Hunter queria ir atrs dela. Deixe-a ir, ordenou a conscincia, vendo a porta se fechar.  isso o que voc quer.
No, no era o que queria, pensou Hunter, mas era do que precisava, do que ambos precisavam: um abismo profundo e largo demais para transporem.
Passou a mo no rosto, mas no se livrou do perfume dela, do fantasma que tocava em seus lbios.
Praguejando, atravessou o salo em direo  porta dos fundos, at o estacionamento escuro. Chovia e fazia muito frio. O nico poste de iluminao mostrava seu carro no canto e o de Raven passando rumo  sada.
Sem raciocinar, Hunter atirou-se na frente do veculo em movimento. Alm do limpador de pra-brisa, sob a chuva intensa, viu Raven chorando, agarrada ao volante.
Ele contornou o carro e tentou abrir a porta do lado do passageiro, mas Raven acionou o travamento eltrico.
	Abra a porta, Raven.  Golpeou a janela.  Abra!
	Deixe-me sozinha!  gritou ela, e acelerou.
Hunter colocou a perna direita sobre o capo e assim permaneceu. Raven freou novamente o carro. Ele a encarou pelo pra-brisa.
	Destranque o carro, Raven!
Ela praguejou. Se ele queria ficar ali a noite toda, debaixo da chuva, que ficasse. Dali a segundos, fraca, destrancou o carro.
Hunter desceu do capo, abriu a porta do lado do passageiro, instalou-se na poltrona e fechou a porta. Estava ensopado, a camisa e a cala colavam-se ao corpo e umedeciam o estofa-mento. Raven tambm no estava seca, pois sara correndo do clube sem vestir o casaco, porm tremia mais de dio que de frio, desconfiava Hunter. Ele mesmo tinha adrenalina demais no sangue para sentir qualquer outra coisa.
Havia pouca iluminao no veculo, a qual diminuiu ainda mais quando ele desligou o carro e guardou a chave no bolso.
	Eu no queria fazer aquilo... Mand-la embora daquele jeito. No sei o que me deu. Eu nunca...  Ele afastou os cabelos molhados da testa.  Desculpe-me, Raven.  s o que posso dizer.
Raven ouvia e fitava a chuva no pra-brisa. Com os cabelos molhados adornando o rosto, tremia bastante.
	Vista isso.  Hunter pegou o casaco dela no banco de trs.
Nem assim ela o encarou. Esperava que ele sasse, para poder ir para casa curar as feridas e reerguer as defesas contra aquele homem.
 do que voc precisa, o que voc exige dela, pensou Hunter. Devolva a chave, deixe-a ir.
	Diga algo. No vou sair enquanto no me disser em que est pensando.
Ela fechou os olhos e ajeitou melhor o casaco.
	Voc me odeia?  indagou Hunter.
	No  o que queria?
	  sussurrou ele.
	Gostaria de poder odi-lo  soluou ela.   to fcil para voc.
	 isso? Voc acha que eu a odeio?  Ele a agarrou pelos ombros. Raven tentou desvencilhar-se, mas ele segurou com mais fora.  Eu no a odeio, anjo. Olhe para mim.
Hunter tomou-lhe o rosto, mas ela apertou os olhos bem fechados.
	No sei como resolver este problema  confessou ele.   por isso que digo as coisas erradas e fao as coisas erradas. No sei como estar com voc sem desej-la. Como conseguirei deixar de desej-la?
Hunter beijou-lhe as plpebras e sentiu o gosto salgado das lgrimas.
Olhe para mim  insistiu ele, e Raven obedeceu. De algum modo, ele sabia que havia mais que desejo naquele olhar. Beijou-a.
Ela ainda se agarrava ao casaco como a um escudo. Ele a puxou pelos pulsos e sentiu o tecido da tnica mida. Raven estremeceu e tentou se retrair, mas ele a acalmou com um beijo interminvel e carcias.
Apoderando-se de um seio, comeou a provocar. Raven ficou ofegante  medida que as carcias intensificavam-se. Hunter sentia frio com as roupas molhadas, mas os estmulos que ela emanava eram como uma fonte de calor.
Em algum momento, ele deixou de pensar. Procurou a barra da saia e sentiu que as meias de seda acabavam no meio das coxas. Dali para cima, s havia pele sedosa para acariciar. Ambos gemeram de prazer. Raven devolvia os beijos e o agarrava pelo pescoo. Afastou um pouco as pernas. O movimento simples e espontneo levou-o ao precipcio que ele lutara para evitar naqueles dois meses. Invadindo a rea ntima, sentiu o tecido fino da calcinha, a feminilidade... Ela prendeu a respirao e ficou imvel.
Ele continuou explorando as dobras ntimas e Raven sussurrou seu nome. Enterrando os dedos nos ombros musculosos, afastava mais as pernas, convidando-o inconscientemente.
	Assim, anjo.  Ele?introduziu um dedo.  Oh, voc  linda... sim...  murmurou, avanando mais, sentindo a carne morna.
	Hunter...  sussurrou ela, num misto de paixo e desespero.
	Shh.  Ele a silenciou com um beijo.
Ela movimentou os quadris e sentiu a ereo dele, desafiando seu controle precrio. Hunter retirou a mo e puxou a calcinha, danificando o tecido. Agia impulsivo, quase rude.
Hunter puxou-lhe a perna esquerda, de modo que montasse sobre ele, enquanto baixava o zper e expunha seu rgo. Segurando-a firme, penetrou-a numa nica investida vigorosa. Raven emitiu um grito breve, que ficou confinado ao carro.
Ele a puxou mais e mais, emitindo grunhidos.
Ela trabalhou os msculos, excitando-o. Hunter enterrou os dedos no bumbum firme dela, trabalhando o ritmo at chegarem ao xtase.
Mesmo nesse instante, enquanto liberava o smen, a vergonha dominou-lhe a alma e foi incapaz de encarar a mulher que ele amava.
De repente, o calor mido e almiscarado do carro tornou-se insuportvel. Gentilmente, Hunter afastou Raven, fechou o zper da cala, deixou a chave do carro no painel e saiu na chuva intensa. 
A batida na porta no acordou Hunter. Ele j estava desperto. Era a segunda noite que passava acordado imaginando como encararia o irmo novamente. O tom da voz de Brent no outro lado da porta no era de bom augrio.
	Hunter, deixe-me entrar, raios!  As batidas se intensificaram:  Toc! Toc! Toc!
Hunter procurou o relgio no pulso, mas no o encontrou. J assistia a programas de entrevistas na televiso, sem prestar ateno, havia uma hora e meia, de modo que deviam ser umas sete e meia.
Brent sabia que Hunter dormia sempre at as dez horas, no mnimo, considerando que chegava em casa s duas da manh nos dias teis. A lista dos motivos para Brent estar ali to cedo era curta. Algum morrera ou...
	Toc! Toc! Toc! Toc! Toc!
A sra. Flynn, do apartamento em frente, reclamou; muita gente ainda dormia. Hunter desligou a televiso pelo controle remoto, abandonou o sof e foi descalo at a porta, de camiseta e short.
Tenso de expectativa, deteve-se com a mo na maaneta. Se Brent estava ali para castigar o irmo por seu monumental ato de traio, o enfrentaria como homem.
Respirou fundo e abriu a porta.
Brent j entrou empurrando-o. Hunter equilibrou-se, endireitou-se e fechou o punho, apesar da deciso de deixar o irmo descarregar a raiva.
	Aposto que pensou que este dia nunca chegaria!  gritou Brent, fechando a porta com um chute.
Hunter afastou-se um passo ou dois, esfregando o ombro, tentando decifrar o motivo da euforia. Estaria bbado? Ou simplesmente saboreando a espera? Brent aproximou-se de sorriso estampado no rosto.
	Pergunte por que estou aqui.  Empurrou Hunter mais uma vez.  Pergunte-me o que  to importante para eu vir aqui tir-lo da cama.  Deu outro empurro, at Hunter colidir com a mesinha.  Vamos, pergunte.
Ele est perdido, pensou Hunter. Ele ultrapassou o limite. E eu o levei a isso.
Brent aguardou, ansioso e entusiasmado, que Hunter fizesse sua parte.
	Est bem  cedeu Hunter.  O que o traz aqui?
Brent levou a mo ao bolso superior da jaqueta. Hunter ergueu os braos defensivamente, para divertimento do irmo.
	Voc sempre fica assustado quando no goza de seu sono de beleza?  indagou Brent.  Falando nisso, no me importo em dizer, voc est horrvel.
Hunter mal ouvia. Estava de olho no que Brent tiraria do bolso. Uma caixinha de veludo cor de vinho.
Uma caixinha de anel.
A mente insone de Hunter debatia-se imaginando se era sonho quando Brent abriu a caixa em seu nariz. Um diamante pesado destacava-se do almofadado de cetim, em corte arredondado clssico, incrustado num anel de ouro igualmente clssico.
	Um anel antiquado para uma garota antiquada  proclamou Brent.
Uma garota antiquada.
	Voc comprou isso para Raven?
	Para quem mais, .mano? Acha que ela vai gostar?  Brent avaliou a jia.  O vendedor disse que eu poderia devolver e escolher outro, junto com ela, mas tenho certeza de que ela vai ficar com este.
Brent no sabia ainda, ento. Raven no lhe contara. Ela tivera o dia anterior inteiro para confessar o que acontecera no carro no estacionamento do Bom Humor, mas optara por no faz-lo.
Ento, Brent comprara um anel de noivado para sua garota antiquada.
Seis semanas haviam se passado desde a declarao "se eu a tivesse conhecido antes" de Hunter. A raiva inicial de Brent amainara e, na semana anterior, ele lhe pedira desculpas por ter extrapolado. At confessara o desejo que sentira das namoradas dele, reiterando que o tinha em alta confiana. Naquele momento, sem ver Raven havia duas semanas, at se achava digno de confiana.
	Ela vir em casa hoje  noite  comentou Brent, fechando a caixinha.  Daqui a doze horas, serei um homem comprometido. Tarde demais para voc roub-la de mim.  Rindo, simulou dois socos na barriga de Hunter, que se dobrou, sentindo dor no estmago, embora Brent no o tivesse tocado.
	Ora, voc est mesmo uma pilha.  Brent bateu-lhe no ombro.  Oua, volte para a cama. Tenho uma reunio logo cedo na revista. S queria dar uma passada para lhe contar as boas novas.  Foi para a porta.
	Como sabe que ela vai aceitar?
Brent voltou-se.
	O qu? Claro que ela vai aceitar. O que acha que ela estava esperando todo esse tempo?
Dois meses no parecia "todo esse tempo", mas supunha que, para pessoas na casa dos trinta anos, com vontade de casar, isso poderia significar um relacionamento de longa durao.
Hunter pretendera confessar tudo a Brent, assim que encontrasse uma maneira. Mas como o irmo reagiria? E Raven? Fora culpa sua, no dela. No que ela no o desejasse naquela noite, mas ele fora o responsvel pelo acontecimento.
E agora tinha que decidir se contava ou no a Brent. Se Raven decidira no contar nada, tinha o direito de atropelar essa deciso e destruir o futuro deles?
Hunter no tinha dvida de que Raven sofria da mesma angstia, at mais. Claro, Brent a enganara desde o primeiro dia, mas sabia que Raven no via a situao daquela forma.
Para o bem de Raven, desejava no t-la engravidado... a perspectiva de v-la carregando seu filho o deixava ansioso.
Hunter se casaria com ela se pudesse, e a amaria para sempre.
Brent franziu o cenho.
	A questo  que Raven descobriu sobre Marina. Ela queria acabar tudo na quarta-feira, pelo telefone.
Hunter no disse nada, embora pudesse contar a Brent que ela sabia havia vrias semanas.
	Fui descuidado  reconheceu o irmo. - No escondi as pegadas bem o bastante e Raven ficou magoada. Sinto-me pssimo com isso, mas, pelo menos, agora sei que ela se importa. Portanto, a resposta  sua pergunta : sim. Ela dir sim.  Bateu no bolso onde guardara a caixinha com o anel.
	De qualquer forma, uma pedra como essa ajuda a amenizar muitas mgoas...
Brent seria um marido fiel? Hunter conclua que tudo era possvel. O irmo parecia acreditar estar se regenerando pelo amor de uma boa mulher, mas s o tempo diria. Desejava que o irmo definisse suas prioridades. Raven merecia um marido que retribusse seu amor e fidelidade com o mesmo empenho.
	Voc anda se encontrando bastante com Marina  observou Hunter.
Brent deu de ombros, mas Hunter o observava atento e notava fatos interessantes. Pensando bem, Brent no sara com vrias mulheres depois que conhecera Marina. Aparentemente, traa Raven s com a modelo de maios, vegetariana, colecionadora de miniaturas.
Existia algo chamado infidelidade monogmica?
	Voc no disse que ia sair com elas s algumas vezes?
 questionou Hunter.
	No importa  disse Brent.  Est acabado. Foi divertido enquanto durou, mas, voc sabe, estou procurando algo permanente.
	E Marina no quer algo permanente?
	Ela no  mulher para casar  disse Brent.
	O que quer dizer?
	Voc entendeu.
	No, no entendi. Ela  muito burra?
	Voc s diz isso porque ela  modelo e fabulosa. A tpica atitude preconceituosa. Acontece que ela tem muito aqui tambm.  Ele bateu na cabea.  Marina  to profunda que voc nem imagina. Ela  sensvel e tem opinies... Sabia que pretende seguir carreira em medicina holstica? Ela sabe que os dias de modelo esto no fim... anda planejando o futuro.
	Mesmo?
	Isso mesmo.
Hunter no se lembrava da ltima vez em que vira o irmo defender algo com tanta paixo.
	Sabe, estou meio lerdo hoje. Essa mulher fabulosa, sensvel, previdente no  mulher para casar. Por qu?
	Voc se casaria com uma mulher com quem fez sexo logo no primeiro encontro?
Hunter ficou boquiaberto.
	Se eu a amasse? Por que no?
	Como saberei quantos homens vieram antes de mim? Marina j circulou bastante.
	Ao contrrio de voc, que sempre viveu como monge, guardando-se para a noite de npcias...
	Quer saber? Se no sabe do que estou falando, essa discusso no vale a pena.
	Voc est falando em usar dois pesos e duas medidas.
Brent riu. Abriu os braos e girou na sala.
	Olhe, mano, no estou vendo nenhuma mulher ao redor para voc impressionar com essa conversa politicamente correta, ento por que no deixa estar?
Hunter desviou o olhar.
	Ento, Raven  esse modelo de virtude e inocncia?
	Calma, sei que ela no  nenhuma virgem. No estou decepcionado. Mas sei que ela no pula na cama com qualquer um. No tenho que me preocupar com ela pulando a cerca com algum camarada, com certeza.
De repente, Hunter imaginou-se no carro dela no estacionamento, com os vidros embaados, a chuva forte, o grito de Raven no instante do clmax.
No tenho que me preocupar com ela pulando a cerca com algum camarada.
Hunter sentiu culpa, mas manteve o foco da discusso.
	 isso, ento? Marina andou se encontrando com outros camaradas enquanto saa com voc?
	Ora, no!
Ento, que importa quantos vieram antes de voc, se ela  s sua agora?, pensou Hunter, mas no disse nada.
	Como ela reagiu quando voc terminou tudo?  indagou Hunter, embora soubesse a resposta.
	Ainda no terminei. Mas ser logo. S no quero fazer isso por telefone.
	Ela sabe sobre Raven?
	No. Para que complicar?
	Ento, Marina acha que  a nica mulher na sua vida. Ela leva voc a srio?
	Oua, adoraria ficar aqui e discutir minha vida sexual...
	Sabia que papai e mame fizeram amor j no primeiro encontro?
	Cale a...
	Papai deixou isso escapar bem aqui nesta sala, h alguns meses, aps beber demais. Ele disse que os dois eram como coelhos.
	Mame nunca teria feito isso!  protestou Brent.
	Oh, eu me esqueci. Ela se casou virgem e foi forada a ter precisamente trs relaes sexuais, para fins puramente reprodutivos.
Brent franziu o cenho.
	Aonde quer chegar? Quer me convencer a desistir de Raven?
Queria? Hunter passou a mo nos cabelos desgrenhados.
 Oua. Sei que gosta muito de Marina. S no quero que tome uma deciso da qual se arrepender mais tarde.
	Bem, no se preocupe comigo, maninho. J pensei bem no assunto, analisei todos os ngulos. Raven  a escolha lgica.
Desde quando lgica tinha a ver com amor?
A porta, Brent voltou-se e, de repente, Hunter no viu mais o heri de sua juventude, mas sim um camarada como ele mesmo, cheio de defeitos, esforando-se para fazer as escolhas certas.
	Preciso do seu apoio nisso  pediu Brent, encarando-o.  Preciso da sua bno, Hunter.
Emocionado, Hunter sentiu um n na garganta. Aproximou-se do irmo e o abraou. Brent devolveu o afeto com fora. A ligao entre os dois ia alm das palavras.
	Tem todo o meu apoio.  A voz de Hunter era um mero sussurro. Perdoe-me, pediu, silenciosamente. Por favor, me perdoe, Brent.  Voc tem.a minha bno.

CAPITULO VIII

Raven logo sentiu os aromas saborosos ao chegar  casa de Brent. Luz difusa, msica de seu cantor romntico favorito ao fundo. Olhou para a mesa de jantar e viu dois lugares postos, velas azuis e verdes boiando numa tigela com as mesmas tonalidades.
Parecia que Hunter ainda no contara a Brent sobre o ocorrido na quarta-feira  noite no carro dela no estacionamento do Bom Humor.
	Brent, eu avisei, nada de jantar.
	 lasanha com molho branco  disse ele. Pegou seu casaco e o pendurou no armrio.  Ao estilo do norte da Itlia. Acho que voc ainda no experimentou minha lasanha branca. Presunto, trs tipos de queijo e um molho rico... daquele que aumenta o colesterol.
Ele estava muito alegre, considerando que ela deixara clara a inteno de encerrar o relacionamento. Seria algum tipo de ltimo esforo para faz-la mudar de ideia?
Brent voltou e beijou-a na boca. Ele cheirava bem, a sabonete e colnia ps-barba. O suter de algodo branco salientava os ombros largos.
Raven estava impressionada com o visual masculino e tinha de admitir que a sensao ia alm do aspecto fsico. Entendia por que as amigas o escolheram. Se ele no fosse to mulherengo, poderia at reconsiderar.
Mas, no fosse Hunter, daria uma segunda chance a Brent?
No. O que vov Rossi disse era verdade... no se casaria com um homem em quem no confiasse.
	Brent, gostaria que no tivesse preparado nada disso  declarou, ao ser conduzida ao sof vermelho tijolo.  Vim para dar uma explicao... no pretendo ficar muito.
	Por que ficaramos sem jantar? Sabe que adoro cozinhar para voc.
Para mim e quantas outras?, pensou ela, lembrando-se da revista de alimentao vegetariana. Ele lhe serviu vinho tinto, mas ela pousou a taa na mesinha.
	Brent, no pode ignorar o que aconteceu. Um jantar ro mntico no vai consertar tudo.
Ele sorveu um gole de vinho, pousou a taa na mesinha e tomou-lhe as mos.
	Querida, no estou tentando ignorar nada. S estou querendo demonstrar quanto voc significa para mim. No lhe dei a importncia devida... a verdade  que no h como minimizar o fato.
Ele a fitou e acariciou-lhe as mos.
	Eu lhe garanto que isso no vai se repetir. E uma promessa. Nunca tive algum como voc em minha vida, Raven. Acho que foi preciso esse acidente para me fazer apreci-la realmente.
	Acidente?
	Quase perder voc.
Ela desvencilhou as mos.
-- Brent...
	Meu pais a adoraram  cortou ele, prolongando-se.  Eles me contaram que a conheceram no clube na quarta-feira. Esto ansiosos em nos ver juntos... eu disse que iramos fazer o brunch l amanh.
	O qu? Eles nos aguardam amanh?
Ele alargou o sorriso.
	Sei que no conseguirei esperar mais para lhes dar as boas novas.
	As boas...?  Raven viu Brent pegar uma caixinha suspeita.
Ele revelou o anel de noivado com o enorme diamante.
	Quer se casar comigo, Raven?
Atnita, ela viu Brent tomar sua mo esquerda e colocar o anel no dedo anular.
	Certinho  constatou ele, rindo.  Temia ter que mandar ajustar.  Fitou-a.  Parece feito para voc, querida. Diga sim. Prometo que a farei feliz. Ou morrerei tentando.
Ela no conseguiu dizer nada, apenas soluou. Como aquilo fora acontecer?
	Devo crer que as lgrimas so de alegria?  indagou ele, pegando um guardanapo da mesa para enxugar seus olhos.
Trmula, ela retirou o anel.
	Raven, no  disse ele, apertando-lhe a mo.  No diga no. D-me uma chance...
	No pode ser.  Ela devolveu o anel.
	Voc me odeia.
	No odeio voc, Brent. S que nunca deu certo entre ns. H muito... no caminho.
	Esse problema com Marina... no significou nada, no vai se repetir. O que ns temos  precioso demais para jogar fora. Pense um pouco...  tudo o que peo. D alguns dias.
	Marina?
Ele hesitou.
	 o nome dela.
	Eu pensei... No h outras?
	Outras mulheres? Bem, no desde... quero dizer, quando comecei a me encontrar com Marina...  Ele suspirou, arquejante.  Oua, Raven, est acabado, ela  histria,  s o que importa.
	Voc est construindo a casa de bonecas para Marina?
Ele arregalou os olhos.
	Como sabe sobre a casa de bonecas?

	No se lembra de ter-me mandado ao poro pegar as nozes no congelador?
	Oh...  gemeu ele.
	Eu vi a casa semipronta na sua bancada de trabalho. Brent, voc no tem sobrinhas, no tem primas jovens, que eu saiba. E a manso que est construindo  to detalhada... algo me diz que ela  mais para ver do que para brincar.
	... ela... ela vai colocar a coleo de miniaturas  confessou ele, desolado.
	No vai me dizer que vai abandonar tudo, aps tanto trabalho.
Mesmo com a fraca iluminao, el viu Brent enrubescer.
	Vou acabar  afirmou ele, sem encar-la.  Mas isso no significa nada. Prometi uma casa de bonecas a ela e vou fazer.
	Ento, como voc vai fazer? Vai dar essa casa elaborada, que fez s para ela e dizer que est tudo acabado?
	Como sabe que eu ainda no terminei com ela?
	Porque nenhuma mulher que se preze permitiria que voc continuasse esse projeto aps troc-la por outra. Ela pe
garia aquela casinha e atiraria na sua cabea.
	Eu esperava... Esperava que a casa de bonecas amenizasse o golpe.
	Como um prmio de consolao? Brent, ela no quer a casinha, ela quer voc!
	Por que diz isso? Voc nem a conhece.
	A menos que Marina seja uma idiota, ela est to ciente de mim quanto eu dela.  provvel que saiba que cheguei primeiro e que ela  a outra. Ela  idiota?
Ele meneou a cabea.
	Ento, ela est aguardando. Est dando tempo para que voc perceba que ela  a mulher certa para voc. O que mostra  que ela investiu mais emocionalmente do que eu e voc.
	O que isso significa?
	Eu no o amo, Brent.
	Voc acha que no... s est magoada.
	E voc tambm no me ama.
	Claro que amo, querida. Por que acha que quero me casar com voc?
	Na verdade, estou tentando entender. Voc a conhece quase h tanto tempo quanto a mim. Cancelou vrios encontros comigo para ficar com ela.  Quando ele abriu a boca para protestar, Raven advertiu:  No se atreva, Brent. Chega de mentiras.
	Eu lhe disse. Fui estpido. Minhas prioridades estavam todas erradas. Mas isso  passado.
	Ir ao clube ver a minha apresentao era um suplcio, mas l estava voc construindo uma casa de bonecas de trs andares, toda detalhada, para Marina! Voc deve ter empre gado centenas de horas nesse projeto.
	O que quer dizer?  resmungou ele, guardando o anel na caixinha.
	Marina no  a outra. Eu sou.
	No  ela que eu quero,  voc.
	Por qu?
	Bem, porque... ns fomos feitos um para o outro.
	O que me faz perfeita para voc? O que eu tenho que Marina no tem?
	Carter.
	O que h de errado com o carter de Marina?
	No ... no h nada de errado propriamente com o carter dela,  s que... voc tem mais.
	Eu tenho mais carter?
	Isso mesmo. Voc tem mais daquilo que imagino numa esposa.
Raven analisou a declarao, tentando decifrar o que ele no dizia. De repente, entendeu e precisou abafar o riso.
	 porque eu no dormi com voc  concluiu.   isso, no ? Eu no dormi com voc e ela dormiu, e isso fez toda a diferena.
	E simplificar demais.
	Ento, o que mais h? Quais so as outras diferenas entre o meu carter e o dele?
Ele suspirou, desanimado.
	 um exerccio intil. E de voc que eu...
	Ela maltrata animais? Ela coa o nariz em pblico?
	Ora, Raven. Estou tentando pedi-la em casamento.
	Muito bem, eu obviamente no sou muito romntica. Ponto contra mim.
	Isso tudo  uma brincadeira para voc, no ?
	Claro  concordou ela.   uma sesso do riso. Diga-me, no que Marina trabalha?
Com relutncia, ele respondeu:
	Ela  modelo de maios.
	Oh.
	Raven...
	Voc me traiu com uma modelo de maios!  Raven imaginou os ensaios fotogrficos.  Como uma mulher comum
pode competir com isso?
	Isso o qu?
	Com o tipo de perfeio de pgina central de revista masculina, ora!
	Para sua informao, Marina  mais do que apenas um corpo... ela  uma boa moa.
	Pensei que tinha dito que lhe faltava carter. Sabe, de algum modo no acho que Marina deu em cima de voc. Aposto que voc a convenceu a ir para a cama e a condena por ela ter sido fcil. Voc  do tipo que acha que existem dois tipos de mulher... para casar e para...
	 isso o que pensa de mim? Que avalio as mulheres com padres diferentes? Voc me acha um troglodita?
	S tenho uma pergunta, Brent. Como imagina sua vida no futuro comigo e com Marina?
	No se trata disso.
	Oh, sim, devemos considerar cada rgo separadamente, mas vamos nos ater a apenas um, por enquanto. Voc sabe o que eu quero dizer. Se se casar comigo, vai lamentar sempre. Porque, no importa o que diga, voc no me ama.  Ela ergueu a mo para det-lo.  Voc ainda no disse as trs palavrinhas, percebe?
Brent hesitou. Tocou-a no brao e encarou-a.
	O amor cresce com o tempo, Raven.
	Acho que voc j est apaixonado e perceberia isso se no estivesse cismado com esse negcio de carter. No vou me casar com voc e voc, se demorar muito para admitir seus sentimentos por Marina, vai perd-la para um homem mais esclarecido.
Raven levantou-se.
	 melhor desligar o forno. A lasanha vai ficar ressecada.
Sombriamente, Brent observou Raven retirar o casaco do armrio.
	Ns provavelmente no nos veremos mais.  Ela se inclinou para beij-lo no rosto, enquanto abotoava o casaco.  Desejo que seja feliz, Brent. De corao.
Ele a acompanhou at a porta em silncio.
	H algo que deve saber.
Ela o encarou.
	E sobre Hunter. El sente algo por voc.
Raven ficou imvel com a mo na maaneta.
	Mas provavelmente voc j sabia  prosseguiu ele.  Pode ser um sentimento verdadeiro ou s luxria. Se for verdadeiro,  claro que ele no ia me contar, certo?
	Por que est me contando isso?
	No  um sentimento unilateral, ?
Chega de mentiras, dissera a Brent.
	No. No  um sentimento unilateral.
	Ele  o motivo de voc...?
	Eu lhe disse, Brent. Voc e eu no daramos certo. Mesmo se no houvesse Hunter. Mesmo se no houvesse Marina. Dou muito valor  confiana.
	Bem, eu diria que  uma boa hora para voc conversar com meu irmo, mas ter que encontr-lo primeiro.
	O que quer dizer com "encontr-lo primeiro"?
	Hunter partiu ontem, ningum sabe para onde. Pouco depois de eu lhe mostrar o anel.
Hunter sorveu um gole de usque e olhou ao redor. As paredes do clube Manicmio imitavam as celas onde se encerravam doentes mentais, com um tipo de almofadado para que no se machucassem. Uma msica estranha saa pelos alto-falantes. Um carto na mesa listava aperitivos com nomes sugestivos.
Os garons e garonetes usavam camisas-de-fora estilizadas. A maioria exibia cabelos espetados. Hunter pediu um "Loco Br-guer De Luxo". O proprietrio levara o tema do idiota ao extremo. O local era menor do que o Bom Humor, porm mais barulhento e frentico. Nem teria ido l aps esquiar, mas no queria ficar sozinho no flat alugado, sentindo pena de si mesmo. Imaginara que visitar os clubes de humor em Vermont... para conhecer a concorrncia... seria construtivo. Comparando os clubes, podia ter ideias. Quase se convencia de que no fugia dos problemas com a desculpa de frias merecidas. Acreditava que, ficando longe de Raven e Brent, eles teriam mais chance de se acertar.
As primeiras trs noites em Vermont ocorreram no final de semana e os clubes que visitara apresentaram comediantes mais ou menos conhecidos. Naquela segunda-feira, porm, era dia de amadores no Manicmio. A iluminao diminuiu e uma mulher de mais ou menos quarenta anos, cabelos roxos e laranja, subiu ao palco em jaleco branco de laboratorista. Coube-lhe aquecer a plateia.
Farto, Hunter deixou dinheiro na mesa, pegou a jaqueta e levantou-se quando apresentavam a primeira amadora.
	Vocs vo endoidar com Raven Muldoon!
Hunter estacou. Ouvira mal? Ento, a amadora comeou e, com certeza, era ela mesma.
	Meu namorado me pediu em casamento.
Hunter voltou-se devagar e viu Raven no palco. Ela sabia de sua presena?
Algum atrs de Hunter berrou:
	Saia da frente, cara!  Mas ele continuou no lugar, atnito.
	Ele me comprou um anel com um diamante do tamanho de uma rolha.
Onde est o anel?  gritou uma mulher nos fundos. 
Hunter olhou para a mo esquerda dela em torno do microfone. No havia nenhum ornamento.
	Recusei. Descobri que ele estava me traindo. Com uma modelo de maios  esclareceu Raven, sob um coro de gemidos femininos e grunhidos masculinos.
	Vai sair ou no?  questionou o rapaz cuja viso era prejudicada.
Hunter voltou a seu lugar  mesa.
Ela recusara Brent?
Raven percorria o palco, gesticulando.
	Uma modelo de maios! Ele tinha que me trair com algum que fica sexy at passando fio dental nos dentes. Mas esse no foi o motivo da minha recusa.  que ele tem um...  Estacou e sorriu maliciosa  plateia.  ...um irmozinho.
A revelao foi recebida com uivos e burburinho.
	Sim,  verdade  admitiu ela.  Eu me apaixonei pelo irmo do meu namorado.  deselegante?  como voltar para pegar uma segunda ou terceira amostra grtis no supermercado... voc no acredita que est fazendo aquilo, no consegue parar e teme ser pega.
Eu me apaixonei pelo irmo do meu namorado. As palavras ecoaram no crebro de Hunter. Ela dissera mesmo aquilo? Estava falando srio?
Raven continuou descrevendo, com termos engraados, como fora obrigada a sair com o namorado designado durante trs meses, fiel a um pacto com as amigas, apesar de estar apaixonada pelo irmozinho dele.
Por isso ela continuara vendo Brent!, percebeu Hunter.
Raven provocou muita risada ao descrever o medo de altura que levara Hunter a procurar sua ajuda profissional, embora essa fobia no o impedisse de esquiar em rampas ngremes, nem de voar em ultraleves.
	Foi quando comecei a achar que talvez eu no fosse a nica a gostar das amostras grtis dos supermercados...
Raven finalizou a apresentao com algumas consideraes sobre as relaes entre os sexos que reciclara dos monlogos feitos no Bom Humor.
Hunter levantou-se, enquanto Raven distribua beijos  plateia. Quase derrubou um garom que recolhia pratos nas mesas. No palco, a mestre de cerimnia apresentava a atrao seguinte.
Hunter chegou  porta da sada do palco no instante em que Raven saa. Com ela ali, bem diante dele, s conseguia agitar os braos, a expresso interrogativa.
	E bom ver voc tambm  disse ela, pondo-se na ponta dos ps para lhe dar um beijo suave na boca.
 Vamos sair daqui.  Ele a agarrou pelo brao.
	Espere, tenho que pegar minha bolsa. Encontro voc na entrada.
Meio minuto depois, Hunter ajudou-a a vestir o casaco e saram.
	Est de carro?  indagou ele.
	Sim, alugado.  Ela apontou o veculo.  Vim de avio.
	Vamos pegar o meu.
	Para onde?  indagou ela
	No sei. Nenhum lugar.  Ele acionou o controle remoto.  Entre.
Acomodaram-se nos bancos. Hunter ligou o motor, mas no colocou o veculo em movimento. A situao parecia-se demais com a de cinco dias antes, quando fizeram amor loucamente...
	Por que veio aqui?  indagou ele.
	Porque te amo.
Hunter fechou os olhos. As palavras lhe envolveram o corao, aquecendo-o. De algum modo, sempre soubera que ela o amava, embora tentasse se convencer... e a ela... de que no passava de atrao superficial.
Abriu os olhos e fitou a noite.
	Eu lhe disse, Raven. No vou roub-la do meu irmo.
	No  assim. Brent e eu terminamos.
	Raven...
	Eu sabia que amos terminar na semana passada, quando voc e eu... S no queria dizer a voc antes de encerrar formalmente com ele.
	Nada disso importa. No entende? J  ruim eu ficar entre vocs. No fosse por minha causa, voc e Brent j teriam se acertado...
	Hunter, acha que quero passar o resto da vida com um homem em quem no posso confiar? No ouviu a minha apre
sentao? Eu poderia ter acabado com ele assim que descobri sobre Marina, no fosse o pacto com minhas amigas.
	A Aliana do Matrimnio. Voc e suas amigas so malucas... sabia?  O motor j estava quente o bastante para se ligar o ar-condicionado. Um ar quente saiu pelo tubo da ventilao.
	Vamos ficar aqui a noite toda?  indagou ela.
	Aluguei um flat tranquilo. Podemos conversar l.
Raven enrubesceu.
	Tem certeza de que  uma boa ideia?
Hunter fitou-a.
	Nem sei como pode fazer piada com isso, aps a forma como a tratei na quarta-feira.
	O que quer dizer?
	S para seu conhecimento, Raven, aquele no  o meu estilo. Eu gostaria... Bem, se ia acontecer, no devia ser daquele jeito. Acontece que eu no estava raciocinando, s estava... eu no sei o que estava fazendo.
	Bem, seja l o que fez, foi muito excitante.
Ele dirigiu o carro at a rua.
	Temia t-la magoado.
	Como eu disse. Foi excitante. Sem sequelas.
	Bem, posso fazer melhor. Nem esperei voc terminar.
	Ento, que tal eu lhe dar uma chance para corrigir o equvoco?
	No  brincadeira, Raven. Nunca vai acontecer de novo. Voc no devia ter vindo.
	Eu lhe disse, Brent e eu terminamos e isso no tem nada a ver com voc.
	E o pacto? Pensei que tivesse de continuar saindo com ele mais um ms.
	Esquea. Eu reescrevi as regras.
	No faz diferena por que rompeu com ele. Brent  meu irmo. No vou ficar com a mulher com quem ele pretendia se casar...
	E se eu lhe disser que Brent me mandou atrs de voc?
	O qu?
	Ele entrou em contato com todos os seus amigos, seus pais, todo mundo, para descobrir aonde voc tinha ido. Passou horas ao telefone entre a sexta-feira  noite e o sbado.
	Meus pais? Ele contou aos meus pais? Sobre voc e eu?
	Sim. Eles ficaram surpresos, mas no final acharam que, se estava bem para Brent, estava bem para eles.
	Est bem para Brent  repetiu ele, atnito.
	Voc no disse a ningum para onde ia, mas Brent concluiu que seu subgerente devia saber. A namorada de Matt deixou escapar que voc estava em Killington. Mas no o localizamos em nenhum hotel ou motel. Como no esquio bem,
fiquei no telefrico e no prdio principal, tentando localiz-lo. Deixei recado no pager, mas voc no deu retorno.
	Esquiei nas reas mais acidentadas hoje  esclareceu Hunter.
	Telefonei para Brent ontem, j sem esperana. Foi ideia dele verificar nos clubes de humor locais.
	Mas como soube em qual eu estaria? H muitos.
	Dirigi a esmo, dando uma olhada nos estacionamentos.
Quando passei pelo Manicmio, vi o seu carro.
	Ento, soube que era noite de amadores... Fez tudo isso s para me pegar?
	Bem, ningum sabia quando voc voltaria, nem mesmoMatt. Eu temia que voc resolvesse aparecer s quando Brent e
eu j tivssemos uma minivan lotada com duas ou trs crianas.
	Brent fez isso mesmo? Ajudou-a a me localizar para ficarmos juntos?  difcil acreditar.
	Seu irmo o ama, Hunter. Ele quer que voc seja feliz e sabe como eu me sinto a seu respeito. E sabe que voc...
sente algo por mim.
Hunter captou a incerteza na voz dela. Mal acreditava que Raven podia ser sua, que Brent no apenas aprovava, mas se empenhara para coloc-los juntos.
 Pode telefonar para ele, se no acredita.
	No acho que esteja mentindo, anjo, eu s... E tudo to extraordinrio.  Passaram diante de uma igreja.  Voc devolveu mesmo o anel?
	Nunca o aceitei. Ele pertence a Marina.
	Eu vi o anel. Algo me diz que no  o estilo de Marina. De qualquer forma, Brent no tem inteno de se casar com ela.
	Oh, acho que ele pode surpreend-lo.
	Mais surpresas?
Hunter estacionou diante do edifcio em que alugara um flat e desligou o carro.
	Por falar nisso... sabe, eu no usei camisinha. Voc pode estar grvida.
	Bem, ento, voc ter de se casar comigo.
	Tente me deter. E, se voc no estiver grvida, teremos que nos empenhar mais. Que me diz?
	Est me perguntando se quero ter filhos? Filhos seus?
	Eu a amo, Raven. Eu a amo e preciso de voc e... raios, vamos nos casar! Logo. No temos que esperar para ver se um beb est a caminho.
	Casamento primeiro  aprovou ela, rindo.  Que tal no Bom Humor?
	 uma tima ideia! J fizemos festas particulares no clube, mas nunca um casamento
	Voc disse uma vez que o clube era toda a responsabilidade que voc podia encarar no momento.
	E voc acreditou? Eu era jovem e tolo. E nunca tinha me apaixonado antes.
	Quanto a ser jovem...
	O qu?
	Isso no o aborrece? Que eu seja bem mais velha?
	Est brincando, certo?  Ele abriu a porta do flat e a convidou a entrar.  Quanto  esse mais velha?
	Quatro anos.  uma boa diferena.
	Para quem? Raven, h quatro anos de diferena entre voc e Brent, tambm. Eu no vi nenhum dos dois se preocu pando com isso.
	...  Ela se interrompeu.
	Diferente? Por qu? Porque ningum pensa nada se o camarada  o mais velho. E o esperado.
	Voc costuma circular com mocinhas  observou Raven, adentrando a sala.  Mocinhas como Kirsten.
Rindo, Hunter abriu a porta do quarto.
	Depois de tudo, ainda precisa de confirmao de que a acho sexy e sedutora? De que, mesmo que viva at os cento e vinte anos, ainda a acharei sexy e sedutora?  Arrebatando-a sem cerimnias, fechou a porta do quarto e a levou para a cama.
EPLOGO

Fora muito gentil da parte de Hunter e Raven convidarem-na e a seus pais e av para a Festa da Primavera no Bom Humor, pensou Charli, ao localizar a mesa reservada no salo do clube. Os ltimos a chegar encontraram o local lotado com uma centena de convidados. Sunn}7 e Amanda, com os respectivos familiares, ocupavam mesas prximas.
Era primeiro de abril e o clube fora decorado com motivo primaveril, toalhas de mesa xadrez amarelo, pratos pintados  mo com motivos alegres... tudo combinava, para variar... pares de velas com fitas douradas e vasinhos com flores verdes e amarelas: orqudeas, rosas, madressilvas. At o palco fora decorado com flores.
	Que tipo de msica esto tocando? indagou vov Rossi, enquanto Charli lhe oferecia uma cadeira e guardava a bengala num local acessvel. Um disc-jquei regulava o som num canto do salo, junto  pista de dana de madeira porttil.
	Acho que se chama jazz fusion  disse Charli.
	Pensei que fosse rhythm'n'blues.
	Espero que no aumentem o volume  declarou o pai.
	No est alto  disse a me.
	Eu no disse que estava alto! Eu disse que esperava que no aumentassem o volume, Betty. Faa um exame de ouvido!
	Basta!  censurou vov.  Vejam vocs dois tolos, brigando feito crianas!
	Estou com fome  disse o pai.  No vo servir?
	Joey!  A vov ergueu a mo.  Voc acabou de almoar!
 Mas estou com fome.
	Veja, Joe.  A me apontou para uma garonete com bandeja.  Esto passando canaps. Voc no vai morrer de fome.
	Preciso falar com Sunny  mentiu Charli, ansiosa em largar a famlia por alguns minutos.  Volto j.
A msica parou.
	Por favor, em seus lugares  pediu o disc-jquei.
Charli ocupou seu lugar. A fugidinha teria que esperar. Hunter e Raven provavelmente queriam dar as boas-vindas aos convidados.
Hunter apareceu no palco, bonito de terno cinza... Mas onde estava Raven? O irmo dele, Brent, aproximou-se, bem como a irm de Raven, Lenore, e uma senhora robusta com uma faixa de cabelos brancos em meio aos fios castanhos, de vestido preto, parecendo quase uma...
Era. Uma tnica clerical! O burburinho entre os convidados aumentou e evoluiu para espanto quando o disc-jquei lanou a marcha nupcial. A multido voltou-se para o fundo do salo, onde estava Raven, ladeada pelos pais. Deviam ter entrado pela cozinha.
O casal Rossi olhou para a noiva. Sunny emitiu um gritinho que flutuou pelo salo. Da mesa prxima, Amanda sussurrou com Charli:
	Voc sabia?
Charli meneou a cabea, rindo, com lgrimas nos olhos.
	No sabia de nada. Pensei que fosse s uma festa!
	E melhor esse casamento ser para valer  disse Amanda.  Se for uma brincadeira de primeiro de abril, eu os mato!
	Ah!  A vov bateu a mo na mesa.  Passarinho arranjou um marido!
	Isto no  lugar para se casar!  A me olhou ao redor,
crtica.  Deviam estar numa igreja!
Charli calou a famlia e voltou a ateno a Raven e aos pais, em lenta procisso pelo corredor at o noivo. O vestido com altura at a canela, com blusa reta de mangas curtas sobre o vestido simples no mesmo tecido lembrava a romntica dcada de 1920.
O corpete e a barra fluida tinham acabamento em renda de padro antigo. Raven prendera os cabelos num coque francs, com mechas soltas ornando o rosto. Segurando um buque de amores-perfeitos amarelos, ela parecia muito feliz. Estava deslumbrante.
E Hunter tambm. Ele no desviou o olhar da noiva durante a procisso, que prosseguia subindo o lance de escada instalado junto ao palco. Raven abraou os pais, que foram juntar-se aos pais do noivo a uma mesa. Hunter estendeu a mo para Raven, escoltou-a at o palco e os dois postaram-se de mos dadas diante da reverenda.
Lenore, a dama de honra de Raven, sorria largo. Brent tambm parecia genuinamente feliz no papel de padrinho... o que no surpreendeu Charli, que sabia que ele dera a bno a Hunter e Raven havia algum tempo e andava muito envolvido com a prpria noiva, Marina.
A reverenda Dolores iniciou a cerimnia:
	J estive neste palco antes; portanto, sei as regras. Se a luz do fundo comear a piscar, tenho um minuto. Este vai ser o casamento mais ligeiro da histria.
Na verdade, foi a cerimnia mais compenetrada e terna que Charli j vira... embora soubesse que seus pais consideravam um casamento fora da igreja uma blasfmia.
Vov Rossi, ao contrrio, providenciou um leno e enxugou as lgrimas. Enquanto Lenore lia um poema que escrevera para a ocasio, vov inclinou-se para Charli e sussurrou:
	 a sua vez agora, Carlotta.
	Vov!  Charli olhou ao redor para certificar-se de que ningum ouvira.
	Voc faz trinta anos nesta semana. Agora suas amigas tm que lhe encontrar um marido.  a sua vez.
Charli sentiu as mos midas. Minha vez, pensou ela. Como poderia ser sua vez, uma virgem de trinta anos que nunca fora bonita o bastante, nem extrovertida o bastante, nem misteriosa o bastante para manter o interesse de um homem? Qualquer tentativa casamenteira a seu favor s poderia levar  humilhao.
	No quero um marido, vov. Quem vai cuidar de voc, de papai e mame, se eu me casar?
	Voc sempre pensa no dever, nunca em si mesma.  uma boa garota, Carlotta, mas s vezes temos de pensar primeiro no nosso futuro.  Fez uma pausa significativa.  Mesmo quando  mais confortvel apenas cumprir o dever.
A cerimnia prosseguia e Charli deixou de pensar no conselho da av para ver Hunter e Raven trocar os votos que os uniriam para o resto de suas vidas. Observando-os, vendo como olhavam um para o outro, no duvidava de que ficariam juntos para sempre.
Como seria ter um homem que a olhasse assim? Saberia um dia? Era corajosa o bastante para tentar? Ou seria, como observara vov Rossi, mais fcil, mais seguro, agarrar-se ao dever e viver a vida como a caula obediente e tmida?
Assim que a reverenda os declarou marido e mulher, Hunter deu em Raven o beijo tradicional, mas definitivamente inovou ao segur-la pela cintura e ergu-la a fim de aprofundar a intimidade. Os convidados levantaram-se e vibraram com a audcia.
Todos se sentaram quando as garonetes comearam a distribuir taas de champanhe. Ergueram-se brindes. O mais comovente foi Brent quem proferiu, aps narrar como, aos doze anos, ensinara Hunter ainda pequeno a prender vaga-lumes em potes de maionese. Dois anos depois, Hunter surpreendeu os pais amarrando sozinho os cadaros dos tnis de lona vermelha, algo que aprendera com o irmo mais velho. Brent ainda o ensinaria a lanar uma bola em curva e como no perder a camisa numa mesa de jogo.
	Quero dizer, l estava eu... oito anos mais velho  continuou Brent.  O expert. Mas, em algum ponto, enquanto eu o incentivava a assistir a filmes proibidos para menores e a virar uma cerveja em menos de meio minuto, Hunter desenvolvia-se em algo realmente importante, sozinho. Por exemplo, como saber quando se est apaixonado... quando se encontra aquela que ser a companheira de toda a vida.  Brent estava emocionado.  Ele no aprendeu isso comigo. A verdade  que meu irmozinho conseguiu enfiar uma ou duas coisas nesta cabea dura.
Finalizando, deu um grande abrao em Hunter. Abraou a cunhada tambm, beijou-a no rosto e sussurrou algo que a fez sorrir.
	Esse  o cachorro extraviado?  indagou vov Rossi,
olhando para Brent, crtica.
	 ele  confirmou Charli.
	Aquela ali vai colocar uma correia nele  previu ela, referindo-se  morena deslumbrante que agarrou Brent assim que ele desceu do palco. S podia ser Marina.
Charli no perguntou  av como ela podia prever tal coisa apenas olhando para um casal. Talvez fosse a linguagem corporal. Talvez o olhar. No importava. Se Lusa Rossi dizia que a mulher daria um fim  vida de gato de rua de Brent Radley, assim seria.
Charli sentiu alvio ao ver Raven e Marina trocarem um abrao afetuoso. Afinal, seriam concunhadas, ou algo assim, quando Marina e Brent se casassem, na primavera. A lua-de-mel deles seria a bordo de um transatlntico, num cruzeiro de um ms! Hunter e Raven, por sua vez, partiriam para a Inglaterra no dia seguinte, onde passeariam e visitariam parentes por duas semanas, indo em seguida para Londres para assistir a uma ou duas apresentaes.
	Esto servindo a bia  anunciou o pai, provando o coquetel de camaro.   s "issinho" de comida?
	Voc e seu estmago!  disparou a me.  O que o dr. Berman disse sobre o seu colesterol?
	O dr. Berman que morra de inanio.
	Tenho certeza de que vo servir uma refeio completa, pai.
A me baixou a voz.
	No trouxemos cheque para dar a Raven e Hunter.
	Claro que no!  replicou o pai.  No sabamos que era um casamento! No se pode esperar presentes se  tudo surpresa. Aposto que eles no pensaram nisso.
	No acho que Raven e Hunter estejam interessados em presentes, pai. S querem partilhar seu dia especial com as pessoas de quem mais gostam.  Charli captou o olhar de Sunny e de Amanda. As trs comunicaram-se em silncio e levantaram-se ao mesmo tempo.
	Vou parabeniz-los  disse Charli, correndo atrs de Sunny e Amanda para a frente do salo.
Assim que viu as amigas, Raven juntou-se a elas para uma rodada de abraos, beijos e risadas.
Charli, Sunny e Amanda beijaram o noivo, que mantinha um sorriso travesso.
	Espero que no estejam decepcionadas porque no saiu do jeito que planejaram  comentou ele.
Sunny ficou boquiaberta.
	Raven! Voc lhe contou sobre o pacto?
	No devia ter feito isso  censurou Charli.
	Correo.  Raven ergueu um dedo.  Eu no devia contar ao camarada a quem me designaram. Nunca inclumos o irmo do objeto em questo.
	Bem, o mais importante  que tudo deu certo  considerou Amanda.  Tudo est bem quando acaba bem.
Raven aproximou as amigas para uma palavra em particular.
	Sei que no demonstrei muito entusiasmo por esse negcio de arranjo matrimonial, a princpio. E sei que tudo pareceu confuso durante algum tempo, mas Amanda tem razo. Tudo saiu melhor do que eu imaginava. S quero que saibam... que sou muito grata a vocs. Sem aquele pacto maluco da Aliana do Matrimnio, eu nunca teria conhecido Hunter.
	Menos uma, faltam trs  contabilizou Sunny.
	Duas  corrigiu Amanda.  No participo do pacto lembram-se? J tive minha parcela de maridos.
Raven ergueu o sobrolho.
	Voltaremos ao assunto na poca certa. Enquanto isso... 
As trs se voltaram para Charli, que engoliu em seco.
	Estive pensando... No quero conhecer ningum. Quero dizer, no posso me casar. Mame e papai precisam de mim e minha av...
	O que h com vocs, meninas?  indagou Sunny.	Primeiro Raven, agora voc. Eu sei que voc quer se casar, Charli
Charli sentiu o rosto queimar.
	Mudei de ideia.
	No  assim que funciona  observou Sunny.  Lembra-se do que disse a Raven quando ela tentou escapar?
ns fizemos uma promessa solene. Nunca quebramos nossas promessas, voc disse, e tinha razo.
	Mas Amanda est escapando!  acusou Charli.
	Amanda acha que est escapando  disse Raven, lanando um olhar severo  divorciada.
	Acho que est na hora de recordar a clusula da avestruz. 	Ela, Raven e Amanda comearam a movimentar os braos como se fossem asas  a emitir o som caracterstico.
	Parem!  ordenou Charli, quando os convidados voltaram-se para elas, curiosos.
Hunter aproximou-se.
	 algum tipo de ritual bizarro da noiva que eu no devia presenciar?
	 a vez de Charli arranjar um marido  explicou Sunny 	E ela est querendo dar uma de avestruz.
Charli enterrou o rosto quente nas mos, desolada quando Hunter pousou o brao em seu ombro e lhe sussurrou no ouvido
	No adianta brigar, Carlotta. Esse grupo  decidido e eu sinto que no aceitam "no" como resposta.
Ela o fitou e, sentindo empatia na expresso, criou coragem para reerguer a cabea.
	Tambm acho que aquele que ficar com voc ser homem de sorte  completou Hunter.
Charli sabia que ele estava apenas sendo gentil, mas tinha razo num aspecto. As amigas no permitiriam que ela quebrasse o pacto. E talvez vov Rossi tivesse razo quando a acusava de ser covarde.
No queria chegar  idade da av contabilizando os anos de solido, lamentando ter deixado escapar a nica oportunidade de felicidade.
Charli respirou fundo e ergueu o queixo.
 Est bem  resignou-se.  Encontrem-me um marido.

FIM
